21.12.17

Livros favoritos 2017

Livros do ano, 2017

Dos diversos instrumentos inventados pelo homem, o mais assombroso é o livro; todos os outros são extensões do seu corpo… Só o livro é uma extensão da memória e da imaginação. Nas palavras de Jorge Luís Borges inscreve-se uma admiração maior pelos novos mundos que o livro traz a quem o lê. Ser leitor é como um super-poder: altera-se a geografia e o relógio, abrem-se horizontes e carrega-se de energia o coração. Tudo sem sair do mesmo sítio. E quando os livros trazem receitas e fotografias de pratos e mesas bonitas, enche-se também o estômago e a alma. Estes são livros que se cruzaram no meu caminho, intencional ou acidentalmente, escolhidos por mim ou trazidos por mãos amigas. Dos esperados aos inesperados, deixo-vos os meus livros preferidos do ano.



Livros do ano, 2017

The Christmas Chronicles de Nigel Slater

O quê? - Um diário sobre o Inverno, o tempo frio, as celebrações da época festiva e o que apetece comer (e beber) quando as temperaturas descem. Escrito de Novembro a Fevereiro, intercala textos sobre as memórias do autor e as receitas que passam pela sua mesa. É um livro "adulto", bonito por dentro e por fora, simultaneamente com uma alegria e uma tristeza que o tornam muito verdadeiro.

Quem? - A minha voz favorita do mundo da escrita culinária: simples, poética e sempre surpreendente. Nigel Slater requer poucas apresentações e tem o meu amor incondicional.

A cozinhar? - Couve-flor no forno e hummus de cenoura (p. 283) e Tarte de figos secos e Marsala (p. 60)

Livros do ano, 2017

A Vida Virgem Extra de Cláudia S. Villax

O quê? - Uma longa e deliciosa carta de amor ao azeite. Este é um livro onde se encontra informação sobre a produção e utilização do ouro líquido, o seu papel na alimentação e o seu lugar na nossa cultura gastronómica. É também um conjunto de receitas vibrantes e fáceis, como é apanágio da autora. Como se não bastasse é graficamente impecável e está cheio de fotografias inspiradoras.

Quem? - Na minha declaração de interesses deve constar que conheço a Cláudia há vários anos e que tenho tido o privilégio de acompanhar o seu trabalho de perto. Admiro o rigor, elegância e espírito crítico da sua abordagem à comida e a tenacidade de levar para a frente projectos maravilhosos. Os seus livros aparecem amiúde nas minhas escolhas e desde que ela continue a fazê-los o mais provável é tal continuar a acontecer.

A cozinhar? - Corações de alface com avelãs tostadas (p. 216) e Salada de nectarinas, burrata e flores de coentros (p. 180)

Livros do ano, 2017

A Cevicheria de Kiko Martins

O quê? - Um livro com as receitas do restaurante. Do Pisco Sour ao quinoto, passando pelas causas e, claro, pelo ceviche. É uma espécie de viagem ao outro lado do mundo, em ingredientes diferentes e técnicas distintas, com a precisão e complexidade dos pratos servidos n'A Chevicheria. Para replicar em casa. E não é melhor ir comer lá e pronto? Uma é outra possibilidade não se excluem. Provavelmente quem já foi tem ainda mais interesse no livro mas, na verdade, é para todos. Basta ter curiosidade sobre a gastronomia do Peru e gostar da comida do chef.

Quem? - Com um percurso que fala por si e se traduz em 4 restaurantes e outros tantos conceitos (sempre ligados pela ideia fundadora de "comer o mundo), o chef Kiko Martins tem nos livros outro veículo para as suas ideias. E vale a pena lê-lo.

A cozinhar? - Quinoto do mar (p. 146) e Abade Pisco com hot chilli piña (p. 220)

Livros do ano, 2017

Cozinha Africana de Viriato Pã

O quê? - Um quase tratado sobre produtos, técnicas e afectos africanos. O autor diz que "cozinhar é duas coisas: cultura e ingredientes". Este é um livro do coração feito com a cabeça no sítio. Alterna entre as memórias do autor e a sua ligação a África, com explicações extensas sobre ingredientes e como prepará-los e receitas que são fruto de um olhar actual sobre a comida com sabores e aromas do continente negro.

Quem? - Viriato Pã nasceu em Portugal. Os seus pais são oriundos da Guiné Bissau e a sua história de vida escreve-se entre influências da vivência familiar, com uma herança africana rica, e a educação de alguém que cresce com a condição europeia de poder viajar e conhecer o mundo. A sua abordagem é distintiva e o seu discurso é muito interessante.

A cozinhar? - Xerém com favas e estaladiço de Botchada (p. 80) e Bolo de batata-doce e Tambacumba com cobertura de coco (p. 138)

Livros do ano, 2017

Sopa para a Síria de Barbara Abdeni Massaad

O quê? - Um projecto de responsabilidade social da autora, cujos direitos de autor e parte das vendas revertem para o ACNUR - Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados. Com a consciência que a calamidade que assola a Síria e todos os países circundantes com a deslocação de milhares de pessoas é responsabilidade de todos nós, este é um livro que faz da sopa, esse prato singelo e ao mesmo tempo completo, um meio de ligação entre os povos. As receitas são contribuição de muitos chefs e, como refere Anthony Bourdain "a sopa é elementar e faz sempre sentido, mesmo quando o mundo em nosso redor deixa de fazer".

Quem? - Barbara Abdeni Massaad trabalha no meio culinário há muitos anos e é parte fundadora do movimento Slow Food Beirute, onde vive.

A cozinhar? - Gondi (de Yotam Ottolenghi e Sami Tamiwmi, p. 131) e Sopa de amêijoa picante com Basturma (de Garrett Melkonian, p. 182)

Livros do ano, 2017

Gather de Gill Meller

O quê? - Quinta, costa, horta, pomar, campo, floresta, pradaria, doca. Oito capítulos que contam a estória da cozinha do autor e a sua relação com o meio envolvente. Tendo os produtos (da terra e do mar) como pretexto somos conduzidos por uma exploração da natureza e tudo o que a caracteriza e diferencia. Cada passo é dado sem barulho, embrulhado em palavras simples de quem quer partilhar uma certa forma de vida. Genuíno e muito inspirador.

Quem? - Gill Meller escreve como cozinha, com a paisagem por companhia e bússola. A abordagem é simples e sem maiores recursos, os pratos são quase sempre saídos de uma combinação inteligente de ingredientes disponíveis e promovem uma ligação à natureza que é muito bem-vinda.

A cozinhar? - Queijo azul com mel, tomilho, tâmaras, cebola frita e sementes (p. 14) e Brownies de chocolate e centeio, com louro e amêndoas (p. 154)

Livros do ano, 2017

Samarkand de Caroline Eden & Eleanor Ford

O quê? - Se como eu nunca esteve na Ásia central, este é o seu bilhete para lá. Meio livro de viagem, meio colectânea de receitas, neste livro o ponto de encontro é estabelecido pela geografia. No lugar exacto onde se encontram continentes e todos os viajantes se cruzam, há a cidade de Samarkand no Uzbequistão. Cores, sabores e a promessa de entrar num mundo mágico de frutos secos, rosas e especiarias, com iogurte e massa phillo à mistura. Com textos explicativos e apontamentos históricos, são as fotografias e os padrões coloridos que nos levam a consumir cada página com sofreguidão.

Quem? - Duas editoras de viagens e culinária que resolveram escrever o livro de sonho de qualquer gastrónomo a suspirar por lugares distantes e culturas distintas.

A cozinhar? - Rolos de beringela grelhada com recheio de noz (p. 27) e Nógado de sésamo, amêndoa e gengibre (p. 216)

Livros do ano, 2017

Downtime de Nadine Levy Redzepi

O quê? - Bloco de notas de uma cozinheira apaixonada tornado livro, com sugestões irreverentes ao alcance de todos. É a aproximação entre a comida de todos os dias e aquele sentimento de celebração especial que faz o encanto deste livro. As receitas são simples mas o estilo é cuidado e depurado, com apontamentos especiais que fazem a diferença. A autora procura desmistificar as técnicas e dar confiança ao leitor par explorar coisas novas. Graficamente é um livro muito bem feito, sobretudo com fotografias dos pratos e uma ou outra da família Redzepi.

Quem? - Nadine é mulher do chef René Redzepi. A sua visão é marcada pelas memórias das refeições familiares e a convivência próxima com uma cozinha profissional e o seu trabalho na sala de um dos melhores restaurantes do mundo.

A cozinhar? - Esmagada de batata e verduras com gema curada em sal (p. 47) e Macaron gigante (p. 255)

Livros do ano, 2017

O pão em Portugal de Mouette Barboff

O quê? - Esta reedição de um livro há muito esgotado abre novas portas à descoberta dos muitos tipos de pão que sempre existiram em Portugal e que presentemente tendem a desaparecer. Entre uma recolha etnográfica e um livro de receitas com fotografias ilustrativas das técnicas de amassar, tender e moldar a massa, é incontornável para todos os padeiros de fim-de-semana e interessados no pão.

Quem? - Uma francesa apaixonada pelo pão com um vasto percurso na história da alimentação em Portugal, Mouette Barboff é antropóloga social de formação.

A cozinhar? - Regueifa da Beira-Baixa (p. 75) e Rabanadas de vinho verde tinto (p. 139)

2 comentários:

  1. Recebi há uns dias o livro do Nigel Slater e estou desejosa de começar a ler :)) Muito obrigada por nos dar a conhecer estes livros, eu sou uma apaixonada por livros de cozinha!
    Estou a ler actualmente um livro da Isabel Allende, Afrodite, e o Great British Bake Off: Christmas. O primeiro é uma mistura de histórias e receitas sobre a relação da autora com a comida, num tom sempre erótico (aliás as receitas são todas afrodidíacas), para quem gosta da Isabel Allende e de comida, como eu, é um livro delicioso. O outro é um apanhado de receitas do programa, e está recheado de fotografias quase mágicas do Natal. :)

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    1. Obrigada, Catarina! Tenho a certeza que vai gostar do livro do Nigel. Se experimentar receitas, diga como foi. ;)
      Fiquei cheia de vontade de voltar ao meu Afrodite. Vou revisitá-lo.

      Boas Festas!

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