18.4.19

De Vidigueira a Vila de Frades, entre vinhos e talhas

Vinhos e Talhas em Vidigueira

Faz-se o caminho com o vinho por destino num território em que a paisagem se pinta de vinha a cada nova curva e as gentes fazem da terra sustento e cultura. De visita a Vidigueira, no âmbito do Terras Sem Sombra, as adegas da região marcam presença num festival que é feito de música sacra, património e biodiversidade e onde o nome da terra, que deriva da palavra vidigeria ou videira, indicia desde logo as ligações ancestrais ao mundo do vinho.

Em cada casa uma mesa posta para receber quem chega, com o incontornável pão alentejano e o omnipresente barro que dá corpo aos pratos e tigelas que esperam os petiscos, aos recipientes onde se serve o vinho e às talhas onde este é feito. O processo é parte de uma tradição antiga que configura uma técnica de preservação e feitura do vinho característica da bacia do mediterrâneo, onde a cultura alentejana se desenvolve.

Mas que vinho é esse? E como se moldam as enormes talhas que lhe dão guarida de Setembro a Novembro? Quem cultiva as castas que dão nome à região? Onde provar? E o que comer, à boleia do copo? Em busca de respostas, seguimos de Vidigueira até Vila de Frades.

Vinhos e Talhas em Vidigueira




Vinhos e Talhas em Vidigueira

Adega do Zé Galante

Para quem procura conhecer a herança do vinho de talha, as pequenas adegas que ainda o fazem de forma artesanal oferecem uma viagem à cultura local. Em Vila de Frades, na Adega do Zé Galante a tradição é alimentada pelo próprio, seguindo os preceitos iniciados pelo seu avô com as talhas de família. As vinhas, a vindima e todo o processo de preparação das uvas e da fermentação que resultam em 6 mil litros anuais são da responsabilidade de José Galante. Entre branco, tinto e palheto (ou "petroleiro", como se chama na zona), a produção é consumida localmente e pode ser provada na adega acompanhando produtos e petiscos alentejanos, numa experiência de comunhão com o espaço e as gentes que é muito interessante.

Lideradas pelo Município de Vidigueira, um conjunto de autarquias deram início ao processo de candidatura da Produção Tradicional de Vinho de Talha a Património Cultural Imaterial da Humanidade UNESCO, com o intuito de proteger esta tecnologia de produção e todas as tradições associadas ao vinho. Para José Galante esta acção representa um importante passo para preservar e divulgar esta forma de fazer o vinho e toda a cultura associada, nomeadamente as talhas cujo modo de fabrico quase se perdeu.

Vinhos e Talhas em Vidigueira

Telheiro Artesanal

Com o tempo contado antes do concerto dessa noite, é no Telheiro Artesanal do Senhor António Rocha que vamos perceber como se fabricam as talhas que albergam o vinho. É com os romanos que esta técnica ancestral chega à Península Ibérica e se mantém no Alentejo até aos dias de hoje. Apesar da recente valorização do vinho de talha, os saberes associados à construção das talhas de barro ficaram comprometidos quando estas deixaram de ser feitas nas últimas décadas.

A oficina é um lugar mágico cheio de utensílios e talhas maiores ou menores em diferentes estádios de fabrico. As explicações do Senhor António e a sua paixão pelo ofício são contagiantes e damos por nós de mãos no barro e com mil perguntas.

Vinhos e Talhas em Vidigueira

Desde a escolha do material ao processo de moldagem, secagem e cozedura, todas as etapas se revestem de inúmeras técnicas específicas e decisões que podem determinar o sucesso do processo. Que tipo de barro utilizar e quanto tempo cozer são questões a que o Senhor António só consegue responder com exemplos concretos da sua experiência, feita de muitas horas de trabalho e de permanente curiosidade. A visita ao Telheiro Artesanal é uma inspiração e imperdível para quem quer perceber o vinho de talha.

Com a luz do dia a caminhar para o seu fim, sei que nos fazemos de novo à estrada para desta feita conhecer vinhos de outra tradição.

Vinhos e Talhas em Vidigueira

Quinta do Quetzal

A entrada é icónica e as encostas servem de cartão de visita à bonita Quinta do Quetzal. O sol já se escondeu quando chegamos e a claridade vem do interior do edifício onde funciona o centro de arte contemporânea e o restaurante. Na parede, um mural de azulejos feito de muitas cores pinta o ambiente de energia positiva e o cansaço de um dia longo parece ficar do lado de fora. Começamos no Centro de Arte Quetzal para conhecer a exposição Drawing Africa on The Map e apreciar o trabalho de artistas internacionais como Marlene Dumas ou William Kentridge, trazidos a um espaço muito especial fora dos circuitos artísticos.

Vinhos e Talhas em Vidigueira
Vinhos e Talhas em Vidigueira

A prova de vinhos começa com uma homenagem à casta mais querida da região, com toda a pujança do Antão Vaz num Guadalupe Branco, Winemaker's Selection, 2016. Para acompanhar uns Pastéis de massa tenra com queijo de Serpa, espinafres e maionese de limão que são perfeitos para a harmonização, uma proposta do menu de degustação que pode ser encontrado no restaurante. Em seguida os famosos Peixinhos da horta com mostarda de pimento que também fazem par com o branco equilibrado e fresco com notas tropicais. No capítulo dos tintos, muito curiosa a diferença evidenciada entre o Guadalupe Tinto, Winemaker's Selection, 2015 produzido a partir de um blend de Alicante Bouchet, Aragonez e Syrah e o Quetzal Reserva Tinto 2015, com as castas Syrah, Trincadeira e Alicante Bouchet. Apesar de ambos apresentarem aromas frutado e notas de especiarias foi o segundo que ganhou a atenção dos presentes e nos fez prometer voltar com mais tempo para apreciar as vistas e explorar as outras referências da Quinta do Quetzal.

Vinhos e Talhas em Vidigueira

Vidigueira Vinho
19, 20 e 21 de Abril de 2019

A Câmara Municipal de Vidigueira organiza este evento de promoção dos vinhos desta sub-região vitivinícola e da a candidatura a Património Cultural Imaterial da Humanidade do Vinho de Talha. Uma boa oportunidade para conhecer as adegas, quintas e produtores e explorar a gastronomia local.


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