Manhã cedo, a expectativa de encontrar novos sabores e uma visão diferente sobre a cozinha vai crescendo a cada passo que dou na direcção da
Comunidade Hindu. O workshop de gastronomia indiana tem prometido um mundo novo e desconhecido, onde a cultura da mesa se encontra no centro de uma filosofia de vida. Reconheço a minha fraca literacia sobre a Índia e a sua cozinha. Ou, melhor dizendo, cozinhas. Atendendo à dimensão e diversidade cultural do país, talvez seja mais correcto falar no plural.
Entre tudo o que nos une e o meio mundo que nos separa, é sempre a relação afectiva com a comida que nos define e identifica culturalmente. Pela mão sábia de Nalini Bhayani e Sona Mendi ficamos a conhecer os princípios da cozinha vegetariana de Gujarat, na parte oeste do subcontinente indiano. São as diferentes leguminosas, as coloridas especiarias, os muitos legumes frescos e os germinados que enchem as receitas que vamos cozinhar.
A base da cozinha ayurvédica, que significa literalmente ciência da vida, está na confecção de uma comida simples e vegetariana, feita com ingredientes frescos. Uma combinação dos 6 sabores que a caracterizam (doce, salgado, ácido, pungente, amargo e adstringente) representa a procura do equilíbrio essencial a uma vida saudável. É por isso que a nossa refeição se faz de muitos vegetais, crus e cozinhados, sob diferentes formas e cores. E sabor, muito sabor.
Para começar, umas
bhajyias, rodelas de batata, beringela, cebola e banana envoltas num polme de farinha de grão, coentros e especiarias que são servidas com um
Chutney fresco de tomate, cenoura e malagueta. Ao lume já se encontra uma panela de
Daal, uma sopa de lentilhas e especiarias que há-de ser servida com arroz
Jeera (cominhos), e um tacho de
Shak, um caril de ervilhas, batata e beringela muito aromático.
O maior dos desafios está, contudo, guardado para o
rotli. Trata-se de um pão indiano (também conhecido como
chapatti) que parece muito simples de fazer. Separar uma bola de massa do tamanho de um punho fechado, achatar ligeiramente e estender, virando até obter um círculo perfeito, com espessura e consistência idênticas a toda a volta. Parece simples e é, sobretudo para Nalini e Sona para quem os gestos são naturais, repetidos com graciosidade e saber. Feito numa chapa quente, o
rotli perfeito é redondo, fininho e enche-se de ar quando é terminado sobre a chama viva. Uma emoção para todos os presentes.
Surpreendente na textura e muito saborosa, a salada de feijão
mung germinado, com tomate, pepino e ervas frescas e o Raava no Sheero, um doce de sêmola de trigo e ghee, finalizado com pistácios. Numa refeição ayurveda todos os alimentos são colocados no prato, um tabuleiro largo de metal e em pequenas tigelas, servindo o pão como talher. O doce é servido juntamente e deve ser comido em primeiro lugar por implicar uma digestão mais demorada. Um desafio demasiado grande para o nosso quadro mental em que o doce vem no fim.
Deixo a
Comunidade Hindu e as nossas simpáticas anfitriãs com a cabeça cheia de ideias depois desta experiência muito enriquecedora que me deixou com vontade de conhecer melhor a cozinha ayurvédica e a gastronomia indiana.
A propósito deste workshop de gastronomia indiana, deixo a recomendação do filme
A Viagem dos Cem Passos. É uma história muito bonita sobre as memórias associadas à comida, a mesa e a cozinha como lugar de encontro e as diferenças culturais entre tradições gastronómicas de diferentes povos.
E é absolutamente imperdível.