Ando às voltas com os livros. Os que me acompanham diariamente no trabalho, os que carrego como companhia e os que são maiores (e melhores) do que o pequeno mundo de crises em que vivemos. Leio, escrevo, risco. Recomeço. De onde vêm as palavras, não sei. Quem escreve fá-lo por necessidade. Para tirar do peito uma ansiedade ou para partilhar uma gargalhada sem som. Quem escreve raramente sabe porquê. Apenas que o faz para os outros, num piscar de olho à imortalidade, para contar uma estória ou fazer história. Já quem lê, cria um laço. Constrói afectos à custa de papel impresso, palavras e imagens com pessoas reais ou imaginárias. Não vejo razão para que seja diferente com os livros de cozinha ou comida.
As minhas escolhas de 2011 são, à semelhança de
outros anos, efémeras, pessoais e (talvez) pouco justificadas. São seis livros cujos autores me despertaram emoções, me levaram a devorar as suas palavras ou a querer experimentar a sua comida. Fiz-me convidada de alguns deles e prometi visitar outros o mais rápido possível. Este é o testemunho de uma viagem pelos livros que este ano me ficaram mais próximo do coração. E da barriga.
Sem mais demoras, os meus livros favoritos de 2011 são (de cima para baixo na fotografia que abre este texto):
1)
Monday Morning Cooking Club – the food, the stories, the sisterhood de Merelyn Frank Chalmers, Natanya Eskin, Lauren Fink, Paula Horwitz, Jacqui Israel e Lisa Goldberg;
2)
Good Things To Eat de Lucas Hollweg;
3)
River Cottage Every Day de Hugh Fearnley-Whittingstall;
4)
Papa-Quilómetros de
Ljubomir Stanisic e Mónica Franco;
5)
Tuscany de
Phaidon;
6)
Cuisine libanaise d'hier et d'aujourd'hui de Andrée Maalouf e
Karim Haïdar.
Proponho-vos como
há um ano atrás, uma receita de cada um destes livros nos dias que se seguem, assim as "festas" o permitam. Começo pelo meu preferido e ao contrário de
outras escolhas, esta foi fácil.
Monday Morning Cooking Club é um livro fantástico.
O livro é fruto do trabalho de 6 mulheres na comunidade judaica de Sidney na Austrália e conta o especial apreço das diferentes famílias que compõem a comunidade pela "arte da mesa", isto é, comer. É um livro feito a muitas mãos. Cada receita chega com a história da família e da sua relação com aquele prato, as memórias familiares, as referências culturais, etc. Através dos testemunhos compreende-se o percurso de um conjunto de pessoas cuja religião levou a dispersão geográfica pelos diferentes continentes e entende-se como a
História judaica foi moldando esta e certamente outras comunidades judias no mundo inteiro. Porque muitas famílias vêm da Hungria, da Polónia ou da Aústria com passagens pela Ásia e por África, muitas das receitas apresentam influências diversificadas. Encontram-se também referências a Portugal em receitas de frango com piri-piri (provavelmente via África do Sul) e alguns pratos
Sefarditas onde o arroz, legumes, frutos secos ou peixe, entre outras influências do Médio Oriente e da cozinha do Mediterrâneo surgem com frequência.
A receita que escolhi e que trago hoje é bastante tradicional nas comunidades judaicas e para mim foi a todos os níveis surpreendente:
Lokshen Kugel. Trata-se de um bolo feito com massa de ovo e queijo e que no caso desta receita específica alia passas, maçã e canela. Digo bolo porque se corta à fatia mas a sua consistência e textura é bastante diferente de um bolo "normal". A receita que publico corresponde a meia receita e possui algumas alterações ao original: usei massa fresca e uma mistura de passas e
cranberries e a minha versão tem mais maçã (neste caso, por engano). Absolutamente a repetir.