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16.10.14

Challah ou o pão entrançado da união

Challah

A cozinha tem andado parada, preterida por dias longos de trabalho e pouca disponibilidade mental. O forno vai sendo ligado com receitas que se fazem quase sozinhas ou para o eventual pão de fim-de-semana. Hoje celebra-se o World Bread Day. Abrem-se as portas do blog ao padeiro cá de casa e a um pão muito bonito, cheio de significados.

As receitas de pão cruzam-se frequentemente com a história e os rituais religiosos. Challah é um pão de origem judaica, originalmente preparado para ser comido no Sabbath – sexta-feira, dia de descanso semanal sagrado nesta religião. Contudo, o sabor proporcionado por esta massa enriquecida com açúcar, ovos e gordura, e as diversas formas entrançadas com que pode ser produzido tornaram-no um pão apreciado em várias culturas, à semelhança do bagel ou do brioche.

outono ovos

A forma mais comum é, talvez, a trança de três cordas cujo simbolismo remete para os valores de Verdade, Paz e Justiça. No entanto, o challah pode ser produzido de múltiplas maneiras e feitios carregando diversos simbolismos. Nesta receita optei por uma coroa entrançada que pode ser feita com a ajuda de uma forma redonda e cujo significado deixo aberto ao que cada um de vós considere mais importante.

Feliz World Bread Day!

Challah Challah

14.12.11

Livros favoritos de 2011 e um bolo de tagliatelle, ricotta e passas

Livros favoritos de 2011 // 2011 Favourite Cookbooks

Ando às voltas com os livros. Os que me acompanham diariamente no trabalho, os que carrego como companhia e os que são maiores (e melhores) do que o pequeno mundo de crises em que vivemos. Leio, escrevo, risco. Recomeço. De onde vêm as palavras, não sei. Quem escreve fá-lo por necessidade. Para tirar do peito uma ansiedade ou para partilhar uma gargalhada sem som. Quem escreve raramente sabe porquê. Apenas que o faz para os outros, num piscar de olho à imortalidade, para contar uma estória ou fazer história. Já quem lê, cria um laço. Constrói afectos à custa de papel impresso, palavras e imagens com pessoas reais ou imaginárias. Não vejo razão para que seja diferente com os livros de cozinha ou comida.

As minhas escolhas de 2011 são, à semelhança de outros anos, efémeras, pessoais e (talvez) pouco justificadas. São seis livros cujos autores me despertaram emoções, me levaram a devorar as suas palavras ou a querer experimentar a sua comida. Fiz-me convidada de alguns deles e prometi visitar outros o mais rápido possível. Este é o testemunho de uma viagem pelos livros que este ano me ficaram mais próximo do coração. E da barriga.

Sem mais demoras, os meus livros favoritos de 2011 são (de cima para baixo na fotografia que abre este texto):
1) Monday Morning Cooking Club – the food, the stories, the sisterhood de Merelyn Frank Chalmers, Natanya Eskin, Lauren Fink, Paula Horwitz, Jacqui Israel e Lisa Goldberg;
2) Good Things To Eat de Lucas Hollweg;
3) River Cottage Every Day de Hugh Fearnley-Whittingstall;
4) Papa-Quilómetros de Ljubomir Stanisic e Mónica Franco;
5) Tuscany de Phaidon;
6) Cuisine libanaise d'hier et d'aujourd'hui de Andrée Maalouf e Karim Haïdar.

Proponho-vos como há um ano atrás, uma receita de cada um destes livros nos dias que se seguem, assim as "festas" o permitam. Começo pelo meu preferido e ao contrário de outras escolhas, esta foi fácil. Monday Morning Cooking Club é um livro fantástico.

Dióspiros e livros
Monday Morning Cooking Club

O livro é fruto do trabalho de 6 mulheres na comunidade judaica de Sidney na Austrália e conta o especial apreço das diferentes famílias que compõem a comunidade pela "arte da mesa", isto é, comer. É um livro feito a muitas mãos. Cada receita chega com a história da família e da sua relação com aquele prato, as memórias familiares, as referências culturais, etc. Através dos testemunhos compreende-se o percurso de um conjunto de pessoas cuja religião levou a dispersão geográfica pelos diferentes continentes e entende-se como a História judaica foi moldando esta e certamente outras comunidades judias no mundo inteiro. Porque muitas famílias vêm da Hungria, da Polónia ou da Aústria com passagens pela Ásia e por África, muitas das receitas apresentam influências diversificadas. Encontram-se também referências a Portugal em receitas de frango com piri-piri (provavelmente via África do Sul) e alguns pratos Sefarditas onde o arroz, legumes, frutos secos ou peixe, entre outras influências do Médio Oriente e da cozinha do Mediterrâneo surgem com frequência.

A receita que escolhi e que trago hoje é bastante tradicional nas comunidades judaicas e para mim foi a todos os níveis surpreendente: Lokshen Kugel. Trata-se de um bolo feito com massa de ovo e queijo e que no caso desta receita específica alia passas, maçã e canela. Digo bolo porque se corta à fatia mas a sua consistência e textura é bastante diferente de um bolo "normal". A receita que publico corresponde a meia receita e possui algumas alterações ao original: usei massa fresca e uma mistura de passas e cranberries e a minha versão tem mais maçã (neste caso, por engano). Absolutamente a repetir.

Bolo de tagliatelle, ricotta e passas // Noodle Kugel
Bolo de tagliatelle, ricotta e passas // Noodle Kugel