Não são coincidências. O que nos liga a um ingrediente, a um prato ou a um autor são emoções. É toda uma dimensão afectiva em torno da comida e do acto de comer que remete para o mais pessoal de cada um. As escolhas que fazemos não são mais que reflexos dessa forma de ser, que no meu caso é teimosa, meio obcecada e muito ciosa dos seus "amores". Isto tudo para dizer que, como em relação ao
Nigel Slater, qualquer coisa que eu escreva sobre a senhora que se segue deve ser, como dizem os anglo-saxónicos, levada com
uma pitada de sal. Que é como quem diz, é preciso dar o desconto.
Avisados que sois, cá vai: a cozinha de
Diana Henry é surpreendente.
O que caracteriza a sua abordagem é uma comida de todos os dias com sabores de outras paragens. O livro
Food from Plenty é isso e muito mais, com conselhos como aproveitar os diferentes ingredientes e o que deles resta, cozinhar para uma casa cheia e não gastar muito dinheiro. Apesar da pertinência actual, este é um livro editado em 2010 que cruzou o meu caminho nos saldos de uma livraria no dia do meu aniversário. Só podia ser um sinal e foi tomado como tal. Em boa hora. É um dos meus
livros favoritos do ano.
Neste livro, Diana Henry escreve receitas para o que denomina
Good Food Made from the Plentiful, the Seasonal and the Leftover. Ou seja, cozinhar o que é abundante, sazonal e o que sobrou de outras refeições. O mote é uma mesa cheia, repleta de sabor e sem gastar uma fortuna. Capítulos como
The roast and 'Les restes' ou
Choice cuts são exemplos do muito que se pode fazer com pouca carne e com carne de peças tradicionalmente menos nobres. De sublinhar a atenção dada aos vegetais, aos cereais e às leguminosas (todos com capítulos próprios) e à utilização com parcimónia do peixe. Cada receita principal vem ainda com duas sugestões alternativas, sempre de grande interesse. E sim, também se dedica algumas páginas aos gulosos em
Where the wild things are ou em
Sweet fruitfulness. Mas hoje é de lentilhas para o almoço que vos falo.
Lentilhas não é um ingrediente que eu use frequentemente. Mais por displicência que por qualquer razão concreta ou argumento válido. Eu até gosto bastante de lentilhas. Neste caso,
lentilhas de Puy. A combinação com peixe parece inusitada, habituados que estamos a vê-las em sopa ou a acompanhar pratos de carne. Aqui vêm com salmão e um molho de alcaparras e ervas.