
Entre romãzeiras de frutos pequeninos e paredes de folhas vermelhas passa-se um tarde esquecida de um Domingo qualquer. Um sentido de Outono molhado. A chegada de um tempo escrito em ocre, vermelho e laranja e a promessa de mesas postas nesses tons. Dias felizes.
Eu noutra vida fui vegetariana. De certeza. É a minha única explicação para o espanto que sinto perante os vegetais, repetido a cada nova estação como se fosse a primeira. Legumes, frutos e outros grãos. Uma emoção. Fico numa impaciência desprovida de qualquer resquício de racionalidade na presença de bancas repletas de folhas verdes, frutos de interior vermelho e ervas aromáticas. Compro mais do que preciso. Armazeno nozes e avelãs como os esquilos. Obrigo-me a não comprar meia-dúzia de abóboras de uma assentada. Encanto-me com uma romã (ou duas). Entristece-me pensar que se vão acabar as beringelas. Até para o ano. Mas como tristezas não enchem barriga, o melhor é cozinhar. Sai um almoço vegetariano. Só podia.

A Fer fez recentemente e publicou no seu sempre fantástico Chucrute com Salsicha esta receita do lindíssimo livro Plenty de Yotam Ottolenghi. Eu tinha marcado a receita, numa espécie de promessa futura de atenção. Aconteceu agora. E a decisão só peca por tardia.
A combinação talvez um pouco inusitada resulta na perfeição. Doce e salgado, sedoso e crocante. Muito retemperador.

A filosofia Ottolenghi explica-se sem dificuldade de maior: comida familiar, simples e capaz de introduzir elementos novos e por vezes surpreendentes. É um trabalho de amor e uma forma de vida. Um enorme cuidado com os ingredientes e a primorosa apresentação fazem das receitas de Yotam Ottolenghi um exemplo. Gosto de o ler semanalmente no Guardian e andar a "mastigar" as ideias até à semana seguinte.
Mais ou menos como faço com as romãs por estes dias.







