28.11.08

Ruas & Fish Pie

England

Caminhar pelas ruas. Se eu tivesse que apontar a minha perdição quando viajo para sítios que não conheço, teria de escolher deambular sem destino. Meter o nariz nos lugares perdidos onde os turistas não se chegam e esconder-me entre os locais. A coisa é muito fácil quando se está numa cidade grande como Londres e se domina a língua. Muda de figura quando se está em Paris com o meu francês macarrónico e insípido. Mas um sorriso enigmático, umas roupinhas cuidadas e uma echarpe colorida extra resolvem. Já tentar o mesmo em Cambridge ou Bury St Edmunds e conseguir pronunciar 'Kenneth' como um local é outra história... Mencionei a minha viagem flash do verão passado ao Reino Unido para me encontrar com a minha amiga N. que vive no Suffolk. Embora eu conheça o sul de Inglaterra relativamente bem, nunca antes tinha estado no centro norte do país. O meu dia passado em Cambridge foi fantástico e a minha visita ao Theatre Royal em Bury mais que memorável. Como boa britânica, N. serviu-me uma pie* para o jantar. Há alguns dias fiz uma para o nosso jantar (daí as fotos miseráveis) e lá fui revivendo aqueles dias.

* pie pode denominar tanto as nossas empadas, como empadões ou tartes cobertas ou invertidas (com a massa por cima).

Fish Pie

Fish Pie
Ligeiramente inspirado em Jamie's Ministry of Food, receita original aqui

para 4 pessoas

4-5 batatas grandes, sem pele e cortadas em pedaços
1 cenoura grande, sem pele e ralada
150g Mascarpone
Sumo e raspa de 1 limão pequeno
1/4 colher chá chili flakes (ou malagueta seca)
400g lombos pescada, cortados aos cubos
8-12 camarões grandes crús, descascados
1-2 colheres sopa azeite
sal e pimenta preta acabada de moer

Pré-aqueça o forno a 200°C.

Deixe a água com sal levantar fervura numa panela e adicione as batatas. Coza por 12 minutos ou até estarem macias. Rale a cenoura para um prato de ir ao forno. Coloque o peixe e os camarões por cima da cenoura e polvilhe com chili flakes. Adicione o sumo e raspa do limão e tempere com sal e pimenta. Regue com o azeite. Misture tudo.

Escorra as batatas num escorredor e coloque-as novamente na panela. Esmague até obter um puré e misture o Mascarpone. Tempere com sal e pimenta. Espalhe uniformemente por cima da mistura de peixe e cenoura. Leve ao forno por 40 minutos ou até estar gratinado e dourado no topo. Sirva com vegetais ao vapor ou uma salada. Servi a minha com abóbora (butternut squash) caramelizada.

26.11.08

Chocolate & Cardamomo

Cardamom Chocolate Cake

A padaria abre ao fim de semana cá em casa. Normalmente pergunto à minha cara metade (aka O Provador) que bolo quer para a semana. Ele lá sugere um ou dois, dependendo se temos alguma fruta a gritar por ser usada ou se alguma receita lhe chamou a atenção. Na semana passada não tive que perguntar. Sabes que tens 5... CINCO! marcas diferentes de chocolate, mais duas metades, aqui no armário?? A chamada de atenção pretendia ilustrar o quanto o sr. Provador abomina a minha (muito) desarrumada despensa e os meus hábitos consumistas. Oh assim tantas? Não fazia ideia. (O papel de anjo assenta-me às mil maravilhas e a minha voz consegue ser mais que convincente quando encarno o papel...) Então o que achas de um bolo de chocolate? Acrescentei rapidamente. Claro! Tudo está bem quando acaba bem. Excepto que não me apetecia fazer um bolo de chocolate rico, cremoso e calórico. A minha vontade era atacar o armário das especiarias... As especiarias adoram chocolate. O cardamomo adora chocolate negro amargo! Lembrei-me que o livro da Sue Lawrence On Baking tinha uma receita com cardamomo e chocolate. Fiz algumas alterações para ir ao encontro do nosso gosto. Este é um bolo muito aromático. A quantidade de cardamomo pode ser reduzida se se desejar.

Bolo de Cardamomo e Chocolate
Ligeiramente inspirado em Sue Lawrence, On Baking

1 bolo rectangular (ou 12 bolinhos individuais)

125 grs manteiga sem sal, macia
1/2 chávena açucar amarelo, compactado
2 ovos grandes, batidos
100 grs chocolate negro (eu gosto do Lindt 70%), partido grosseiramente
2 chávenas farinha com fermento, peneirada
2 colheres sopa (30 ml) leite
3-4 vagens de cardamomo(ou mais, a gosto)

Pré-aqueça o forno a 180°C. Peneire a farinha para uma tigela. Esmage as vagens de cardamomo num almofariz. Use um passador de rede para juntar o cardamomo moído à farinha. Noutra tigela, bata a manteiga com o açucar, até a mistura estar fofa. Adicione os ovos, um pouco de cada vez, até estarem totalmente misturados. Deite a farinha e o leite e bata bem. Acrescente o chocolate aos pedaços e mexa até combinar. Deite numa forma rectangular untada e alise o topo com uma espátula. Leve ao forno por 40-45 minutos ou até um palito inserido no meio do bolo sair limpo. Deixe na forma por 15 minutos para arrefecer e transfira para uma grelha metálica.

O bolo pode ser polvilhado com açucar em pó ou cacau de boa qualidade. Sirva com natas batidas ou lemon curd.

Cardamom Chocolate Cake

Envio este bolo para a Lorraine do Not Quite Nigella para The Ultimate Chocolate Cake Challenge! Não sei se este é o meu melhor bolo de chocolate, mas foi um sucesso com uma chávena de chá.

14.11.08

5 livros + 10 imagens

5 favourite cookbooks

Os livros são almas residentes cá em casa e povoam os espaço como se de verdadeiros seres pensantes se tratasse. Espalham-se pelas paredes, acumulam-se no chão, ficam esquecidos nas mesas. As minhas pilhas são desordenadas, em equilíbrio periclitante, sempre em vias de desmoronar, enquanto as do Provador são arrumadas, sempre estáveis e por vezes temáticas... Oferecemo-nos livros e contamos a história das nossas existências a partir deles. Esquecemo-nos propositadamente de uns e recusamos esconder outros, celebramos os livros e não vivemos sem eles.

O Marcel Gussoni do Sabor Sonoro e a Dani Oliveira da Cozinha Travessa desafiaram-me para escolher 3 dos meus livros favoritos. Como a minha cabeça é como as minhas pilhas de livros, em desalinho e com falta de uma 'geral' permanente, fiquei com a ideia de que eram 5 livros... Enfim. Aqui ficam 3 escolhas possíveis, de ontem, publicadas hoje com a certeza de que amanhã seriam certamente diferentes.

A Platter of Figs

A minha última paixão chama-se David Tanis. Eu tenho esta mania de desenvolver paixões assolapadas por homens que não conheço... A coisa não é patológica porque a terapia passa por cozinhar as receitas deles e seguir em frente. Este A Platter of Figs & Other Recipes é um livro delicioso, de uma singeleza arrebatadora. Aconselho vivamente.

O meu livro favorito do Jamie Oliver tem de ser o Jamie's Italy. Fica aqui o novo Jamie's Ministry of Food, sobretudo pelo conceito e pela campanha na divulgação da ideia. Cozinhar é/pode ser um prazer, numa sociedade que deixou de o fazer e, pior que isso, de o saber fazer.

E last but not least, o livrinho do Nigel Slater, Real Fast Food, a que recorro em busca de combinações de ingredientes e que se lê (não tem fotos) como se de literatura se tratasse.

Passo a palavra, porque tenho curiosidade de saber que livros escolhem:
a Mariana do Caos na Cozinha
a Ana Elisa de La Cucinetta
a minha amiga Marizé nos seus Tachos de Ensaio
a Laranjinha dos Cinco Quartos de Laranja
e a Dona Pipoka, timoneira das Three Fat Ladies!

Não resisto a apontar "fora de competição" o delicioso livro da Tessa Kiros sobre a comida portuguesa. Piripiri starfish é um livro que faz sonhar. Quando eu escrever livros, quero ser como esta senhora!

Tessa Kiros' Piripiri Starfish

Há muito, muito tempo, a Sylvia do La vida en Buenos Aires y afines convidou-me a partilhar 10 imagens deste blog. Com atraso e a escolha de outros dias, aqui ficam.

10 photos

12.11.08

Outono Delicioso (ou uns Muffins de Abóbora)

Pumpkin Poppy Seed Muffins

Delicioso outono! O mais fundo da minha alma está unida a ele, e se eu fosse um pássaro voaria pela terra em busca de sucessivos outonos. A ideia de George Eliot vai ao encontro da minha vontade. O Outono é a minha estação do ano favorita. Eu, também, viajaria de bom grado pelo mundo na procura de um novo outono, especialmente naquelas paragens onde as folhas passam de amarelo a vermelho e têm todas as tonalidade de laranja... Onde as maçãs, os cogumelos, as pêras e a abóbora estivessem a entrar na estação. Um lugar onde o aipo, as clementinas e a butternut squash se encontrassem com facilidade. Com o Outono vem uma manta no sofá e uma chávena de chá acompanhada de um Muffin de Abóbora e Sementes de Papoila.

Pumpkin Poppy Seed Muffins

Muffins de Abóbora e Sementes de Papoila

12 unidades

1 chávena de abóbora ou butternut squash, em puré*
1/2 chávena + 2 colheres sopa (cerca de 150ml) natas
1 ovo grande
1 1/3 chávena (cerca de 175g) farinha com fermento
1/2 colher de chá fermento em pó
1/4 colher de chá bicarbonato de sódio
2/3 chávena (cerca de 150g) açucar
1/2 colher de chá canela
1/2 colher de chá gengibre em pó
1/2 colher de chá allspice
1/2 colher de chá noz moscada moída
3 colheres sopa manteiga sem sal, derretida
2 colheres sopa sementes de papoila
açucar em pó, para polvilhar (opcional)

Pré-aqueça o forno a 180°C. Bata o puré de abóbora com as natas e o ovo, numa tigela de tamanho médio. Peneire a farinha, o fermento em pó, o bicarbonate de sódio, o açucar e as especiarias para outra tigela. Adicione as sementes de papoila. Combine as duas misturas, a líquida na seca. Acrescente a manteiga derretida, batendo até obter uma massa homogénea. Deite a massa numa forma de silicone para muffins. Leve ao forno 25 minutos ou até os muffins crescerem e estarem dourados. Remova os muffins da forma e deixe arrefecer sobre uma grelha metálica. Polvilhe com açucar em pó para servir.

O puré cria uma óptima textura húmida nestes muffins com sabor a especiarias, no entanto, estes bolinhos não são bons para guardar e devem ser comidos no espaço de 2-3 dias.

* A abóbora ou butternut squash pode ser cozida em água ou ao vapor ou assada. Eu assei a minha e retirei a polpa com uma colher, depois de a colocar em metades cobertas por alumínio no forno por 45-55 minutos ou até estar mole e cozida.

Pumpkin Poppy Seed Muffins



"Muffin Monday" é o nome de um evento francês de muffins, organizado pela Dominique da Cuisine Plurielle. A edição #11 é dedicada ao Outono. Estes Muffins de Abóbora e Sementes de Papoila são a minha entrada para este simpático evento.

8.11.08

Raindrops keep fallin' on my head... em Londres

Portobello Market

No passado sábado, Londres apresentava o característico lovely British weather: chuvinha, vento e frio. Perfeito. Tinhamos planos para ir até Portobello Market, andar por Notting Hill, e encontrar bons amigos. E assim fizemos, apreciando as antiquidades britânicas, todo o tipo de lixo 'posh', roupas 'stylish' e chuva. Montes de chuva. Reclamando e injuriando o tempo, comprei especiarias na the Spice Shop e decidi que a Books for Cooks era o local ideal para recuperar a temperatura, folheando maravilhosos livros de cozinha enquanto esperava pelos amigos. E como foi fantástico encontrá-los!

George Orwell's house

Agora já um coeso grupo de 7, deixámos a loja para caminhar mais um pouco pelas redondezas. Fomos até ao Le Maroc, para comprar tahini e melaço de romã, e finalmente rendemo-nos ao tempo gelado. Quando vimos uma comprida mesa de madeira na deli ao lado do mercado Marroquino decidimos que era o sítio perfeito para a nossa refeição. O dia frio e cinzento tinha-se enchido com a gargalhada da Valentina, a nossa converseta interminável e uma retemperadora comfort food: sopa de cenoura e aipo, tostas marguerita, litros de chá e um monte de memórias para guardar.

Ao deixar a deli, caminhámos para Notting Hill Gate, passando pela bonita montra do Ottolenghi. Todo o tempo não me saía da cabeça o filme "Butch Cassidy and the Sundance Kid". Uma das cenas mais românticas e comoventes é quando "Butch" (Paul 'lindíssimo' Newman) leva "Etta" (Katherine Ross) numa volta de bicicleta, sob um céu azul sem resquícios de chuva. A música era, ao mesmo tempo, contraditória e absolutamente certa. Raindrops keep fallin' on my head a tocar na minha mente, enquanto chuva real me molhava a face... Mas que dia - felicidade, alegria e amizade. Quem é que quer saber da chuva?

Lunch with friends

6.11.08

Can you read my mind?

Made You Look

Can you read my mind?
Can you read my mind?

The teenage queen, the loaded gun
The drop dead dream, the Chosen One
A southern drawl, a world unseen
A city wall and a trampoline


Conheço Londres demasiado bem para ser fácil pôr por palavras os sentimentos diversos que me assaltam de cada vez que volto. A música dos The Killers, Can you read my mind? (cover do David Fonseca na barra lateral) oferece-me uma síntese perfeita. Londres consegue sempre ler-me o pensamento. Volto a ter quinze anos quando percorro Trafalgar Square e me recordo da primeira vez que vi punks e um Velásquez ao vivo - no mesmo dia e a apenas curtos metros de distância uns dos outros. A vertigem da grande metrópole: o melting pot total. Todos se integram. Até eu, com a minha postura teimosa, um casaco às flores, saia cor-de-rosa (e sabrinas...) a subir os degraus da National Gallery. Volto a Trafalgar Square apenas alguns anos atrás quando Londres ganhou o direito de receber as Olimpíadas de 2012 - momentos antes dos ataques terroristas que espalharm o terror pela cidade. Não, não, não, outra vez NÃO! A minha mente voa para o primeiro crumble, um bread pudding ou baked beans, e avança para as grandes livrarias onde qualquer livro à superfície da Terra pode ser encontrado.

British Breakfast

Mas Londres está longe de ser um local de sonho. Ir de visita é sempre uma emoção, viver lá é algo completamente diferente. O que parece organização quando se está de passagem torna-se em estreiteza de espírito ao fim de um tempo, a luta competitiva por tudo e mais alguma coisa fica exasperante, o tempo húmido entra nos ossos e no cérebro. Ainda assim. Londres é a cidade que escolheria se saísse do meu país. Porque nada se compara à sua capacidade de oferecer pequenos nadas a cada passo, quando se caminha pelas ruas que levam a Convent Garden ou Notting Hill. Aonde quer que se vá, há um canto, uma loja ou um lugar encrustado nas vibrações da sua zona que nos rouba a alma. Inacreditável, esta coisa. É excitante, chocante (assustador, até) estar numa cidade que nos lê a mente...

Oh well I don't mind, you don't mind
Cause I don't shine if you don't shine
Before you go
Tell me what you find when you read my mind


Almond & Cherry Muffin