Sejam bem-vindos a Londres. A viagem passa pela cidade onde vive o meu convidado de hoje. Virá para o jantar. Ou para o pequeno-almoço. Talvez chegue pela hora do almoço. Nunca se sabe. Resolvo estar preparada. A nossa refeição será uma tosta de cogumelos com um ovo escalfado. O prato que lhe reservei come-se a qualquer hora e cabe nas várias refeições do dia. Se vier para uma refeição mais formal, bebemos vinho. Se ele se perder pelas ruelas e mistérios desta cidade e chegar para o
brunch, há-de haver um bule de chá
Earl Grey ou uma chávena de café à espera. Não que o homem que convidei para a minha mesa perca tempo com refeições. Entre deduções lógicas e o método científico, criminosos, vilões e gente em apuros é ao violino e à cocaína que recorre quando mais nada funciona.
Hello, Mr. Holmes.
Sou uma fervorosa leitora de policiais. Sempre fui. Podia dizer que um dos meus escritores preferidos é
Sir Arthur Conan Doyle. Não é verdade. A minha dedicação tem um destinatário diferente. Conan Doyle criou um personagem que saiu do papel, assumiu vida própria e sobreviveu ao criador. A sua morada em
221B Baker Street passou a existir, as suas frases de tão repetidas parecem reais e os seus hábitos são discutidos como se de uma pessoa se tratasse. Li todas as aventuras de Sherlock Holmes que foram, no original, publicadas como um folhetim na revista
The Strand. Segui séries televisivas, entre as quais um fantástico
Jeremy Brett na
Granada Television e mais recentemente um
Sherlock moderno, com telemóveis e computadores à mistura (da BBC). É um reencontrar do génio, numa reinvenção constante, em novos cenários e diferentes tempos. Há ainda as sequelas. É que alguém como Sherlock Holmes tem muitas vidas. A minha preferida é da escritora
Laurie R. King com a sua
Mary Russell a casar com Holmes quando este já vai nos "sessentas" (
traduzido em Português) e a ombrear com ele em aventuras pelo mundo inteiro.
A relação de Sherlock Holmes com a comida é de profundo desprezo. Os gritos pela Mrs Hudson nunca são para pedir o pequeno-almoço, para desgosto do Dr. Watson que é um bom garfo e da própria Mrs Hudson, uma cozinheira muito competente. Embora já estejam presentes as influências do império Britânico e a tradicional tendência para os assados, as
pies e os
hot pots, a Londres vitoriana tem uma cozinha sem grandes rasgos. Estes cogumelos
on toast não serão estranhos ao meu convidado já que sabores idênticos podem ser encontrados nas receitas da época. Se ele não gostar, como eu. É que já ando a preparar o estômago para o que dirá de mim.
Convidei para jantar é um projecto da autoria da
Ana e o tema deste mês (já adivinharam) é
Personagens de livros e/ou filmes. Sherlock Holmes cabe em qualquer das categorias, com os livros (e já agora as séries televisivas) a estarem a anos luz do que tem sido feito no cinema. Um convidado surpreendente. Em todos os sentidos.