Das muitas razões para fazer do vinho o centro das atenções, fico-me pelas paixões suscitadas e pelo gosto da partilha. Como qualquer admirável mundo novo, é o muito que há para descobrir e aprender que me move. Num final de tarde de chuva, eis-me atrasada e em passo apressado em direcção ao Hotel
Tivoli. Vou ao encontro do
Wine Club Portugal para um
Curso de Vinho destinado a principiantes.
Bloco de notas, caneta, câmara, acção.
Pronta para (quase) tudo e de sentidos despertos, vou retendo tudo o que posso entre muita informação, descrições e exemplos até à prova de vinhos. Na primeira sessão, de duas que compõem o curso, são os brancos que tomam a dianteira e compõem a totalidade dos vinhos provados. Numa sala em que a maioria se confessa fã de tintos, esta quase provocação consegue o sorriso de muitos.
Um vinho é resultado de muitas vontades e prerrogativas: as raízes, a terra, o clima e as pessoas. Da vinha para adega até ao vinho, lá vou conduzida pelos conhecimentos, experiência e boa disposição do engº
Mário Louro. A sua enorme paixão pelo vinho está presente nas palavras, escolhidas com rigor, e na atitude quase irreverente de quem sabe de cor todos os caminhos. É a capacidade de explicar as diferentes dimensões do vinho, tornando-o inteligível para quem como eu ainda tem muito a aprender, que me acompanha ao longo das horas.
Num ápice, termina a primeira sessão. Passaram-se 3 horas e eu sinto que acabei de chegar. Ciosa do meu novo vocabulário, revejo mentalmente a prova organoléptica, penso de novo na importância do
terroir e encanto-me com o
bouquet do vinho.
Na memória, feita também de emoções, levo um
Sauvignon Blanc & Verdelho 2011 da Casa Ermelinda Freitas. A conquista do dia é que sei dizer porque gosto deste vinho. É elegante, floral com notas de vegetal e tem uma acidez correcta. A minha câmara não captou para a posteridade a sua presença, mas pouco importa. Para a sessão do dia seguinte, a segunda, ficam prometidos os tintos e umas quantas surpresas.
Sessão número dois. Novo dia e a mesma chuva. Nada que nos demova, após um dia de trabalho, de seguir a paixão pelo vinho. Entusiasmados, tentamos adivinhar o que nos espera. Perfiladas, as garrafas contam pouco daquilo que contêm. Estão todas cobertas e algumas não têm gargantilhas para que não possamos identificar os vinhos. Das perguntas que tínhamos de trazer de casa, é o tema da madeira que fica em foco. Rabisco notas e mais notas no meu bloco. Fico curiosa com o efeito que a madeira traz ao vinho.
De novo, cabe aos brancos abrir a festa. Começo a conseguir identificar os diferentes aromas e a distinguir as pequenas nuances de cor. Honra seja feita aos brancos, ninguém sentiu falta dos tintos. Quando estes chegam é a surpresa de encontrar novas castas, algumas portuguesas, que me deixa a pensar na riqueza que é possuir tanta variedade. Os meus pensamentos são interrompidos pela chegada de um vinho velho. Quando eu achava que não podia ficar mais complexo, eis que tudo o que sabia sobre cor e aroma leva um abanão. Como os brancos, os vinhos velhos também merecem outra atenção por parte dos consumidores. Por mim, comprometo-me a tentar. Quando se acaba de provar um vinho com a nossa idade, há também uma ou outra emoção a contribuir para a história. Porque a relação que se estabelece com um vinho é todo um entrelaçar de sensações e sentimentos. Como deve ser.
É no rótulo do Solar dos Lobos
Syrah 2011 que fica plasmado um amor maior, numa mais ou menos literal representação do que um vinho tem de trazer a quem o bebe. É um vinho com corpo e alma, completo. Mais notas tomadas e a promessa de investigar a enóloga Susana Esteban, com cujos vinhos me tenho cruzado recentemente. Com o vinho seguinte a chegar, uma nova descoberta.
Conseguem adivinhar a região? Quando eu achava que estava a fazer progressos, um novo desafio. Neurónios activos, revisão da matéria dada, prova. Vou pensando. É um vinho onde a madeira vem acompanhada de fruta vermelha, a lembrar chocolate e com boa acidez. Consigo excluir o sul mas não me atrevo a mais. Da região do Tejo, este
Quinta da Badula Reserva 2010 havia de ser servido ao jantar. Mais um rótulo que merece atenção.
Ainda a processar informação, a próxima questão.
Como combinar um vinho com um prato? O ponto último no programa do curso é mais uma caixa de Pandora. não por de lá saiam todos os males mas porque, de novo, se introduzem mais variáveis. Falamos dos erros mais comuns, da dificuldade de harmonizar um queijo de pasta mole (e com gordura) com um vinho. A solução está na acidez. Razão de sobra para olhar de novo os brancos, em detrimento dos tintos. Com o tempo a passar a correr, a segunda sessão do curso passa para a mesa de jantar do restaurante
Brasserie Flo. Novo quebra-cabeças. Ostras. Bife tártaro. Que vinhos escolher?