7.11.18

{ Viajar no Prato } No Chutnify há uma Índia pronta a descobrir

Chutnify, Lisboa

A viagem começa antes de nos sentarmos quando a sala nos recebe directamente no bar e, em jeito de check-in, escolhemos um cocktail que já remete para paragens longínquas. O Chutnify veio de Berlim para Lisboa e a comida promete levar-nos até à Índia, à boleia de especiarias, leite de coco e manga. O ambiente evoca a estética de Bollywood, num compromisso entre o informal e o tradicional, uma versão contemporânea do restaurante indiano onde diferentes gerações marcam encontro. Hoje a promessa é viajar no prato. Partimos para longe nesta refeição porque queremos conhecer melhor a comida da península indiana, os seus sabores e tradições.

Novembro é um mês importante com a celebração do Diwali. É tempo do festival das luzes, um dia de festa para os Hindus, em que se comemora a passagem das trevas para a luz com o início de um novo ano. Ainda a pensar na analogia da claridade, do recomeço sempre necessário a uma vida mais feliz, sentamo-nos por fim. Na mão segue um copo de Oh Kolkata (rum Old Monk, laranja, xarope de canela e limão) — bonito, aromático e muito equilibrado — é a companhia certa para começo de jantar e um brinde.

Chutnify, Lisboa
Chutnify, Lisboa

A curiosidade é grande e queremos provar as famosas dosas, uma espécie de panquecas finas com farinha de arroz e lentilhas moídas, servidas simples ou com recheios diversos. À laia de entrada, a escolha recai sobre uma Cheese Dosa (Crepe salgado feito de lentilhas e arroz recheado de queijo, tomate, pimentos e coentros, acompanhado com chutney de hortelã e de tomate) que apresenta uma textura surpreendente e muito sabor. Parece ter sido pensada para apreciar em conjunto com uma cerveja indiana suave, a deixar o palco todo para a fantástica dosa. Ao nosso lado, um senhor indiano que come sozinho delicia-se com a versão simples, retirando pedaços estalados de um longo "canudo" (esta dosa vem enrolada) e que ocupa metade da mesa. Numa nota mental, fica a vontade de pedi-la numa próxima visita.

Para prato principal, decidimos explorar a oferta de caril que é composta por versões de peixe, carne ou vegetais e com intensidade de picante variáveis. Desta feita são os mais suaves que escolhemos provar: Butter Chicken (Coxas de frango, masala, pimenta e gengibre) e Alleppey Fish (Robalo, leite de coco, mostarda e gengibre). Todos os pratos de caril vêm acompanhados de arroz basmati mas pedimos também Garlic Naan, um Pão indiano com alho. As diferenças de sabor do caril são evidente de um para o outro, não apenas na quantidade e tipo de picante, mas sobretudo na mistura de especiarias usada. Muito curioso é também o modo como o acompanhamento, arroz ou pão, altera a experiência, sendo o naan perfeito com o frango e o arroz basmati essencial ao robalo.

Com a refeição a cumprir todas as expectativas, o prato da noite ainda havia de chegar.

Chutnify, Lisboa
Chutnify, Lisboa

1.11.18

Tarte de maçã com crumble de parmesão (e 11 anos a publicar por aqui)

Tarte de maçã e parmesão

Dois dígitos compostos pelo mesmo número. 11. Capicua símbolo da sorte de contar onze anos a escrever sobre o melhor da mesa, em boa companhia e (quase) sempre de copo na mão. São horas e horas passadas a falar de comida, das cozinhas para a sala, apenas metade das passadas a sonhar com novas aventuras. Entre a curiosidade e o desejo fica um caminho feito de descobertas: novos sabores, novos aromas, novos gostos. Ou como diria Brillat-Savarin, a descoberta de um novo prato faz mais pela felicidade da humanidade do que a descoberta de uma estrela. Por muito que se ande de olhos no céu, cá em casa é à mesa que encontramos sempre o norte.

Em onze anos guarda-se o mundo em memórias que devem ser celebradas, sítios, momentos e pessoas cuja marca é indelével e cujo pólo agregador se encontra nestas páginas. E passados tantos dias, semanas e meses continuamos gourmets amadores, gente gulosa de histórias, caçadores de emoções servidas com talher, curiosos guiados pela fome de saber e pela perspectiva de haver sobremesa.

Outono 2018
Tarte de maçã e parmesão

Feita de bolacha, amêndoa e manteiga, tem nas maçãs texturas várias e guarnição. A extravagância está no parmesão que se faz crumble e no millet tufado porque é bonito. É também uma ode ao Outono à boleia de uma chávena de chá, partilhada com quem nos faz feliz.

Obrigada por estarem desse lado. Puxem uma cadeira e provem um pouco desta tarte. Juntem-se a nós porque a vida é infinitamente deliciosa. E que venham mais 11!

Outono 2018
Tarte de maçã e parmesão

31.10.18

Do Chile para o copo, uma viagem pelos vinhos do Novo Mundo

Vinhos Casas Del Bosque, Chile

Ir é o verbo maior da curiosidade. Querer saber, experimentar, sair da zona de conforto do já conhecido, abrir horizontes. É assim de cada vez que um novo olhar se desenha ou uma cultura diferente se apresenta à nossa mesa. Também os vinhos trazem promessas de experiências distintas quando a sua origem lhes confere uma alma particular que chega até nós vinda de outro continente. Das Casas Del Bosque para o nosso copo um pouco do Chile vem em forma líquida, com cores distintas e aromas de outras paragens.

Se cada vinho pede harmonizações particulares, entre o branco e o tinto das Casas Del Bosque procuramos companhia para um Sauvignon Blanc Reserva 2017 que se impõe pela elegância e o Carménère Reserva 2017 que nos dá a conhecer uma casta diferente a pergunta que se coloca é o que servir com cada um.

Vinhos Casas Del Bosque, Chile
Vinhos Casas Del Bosque, Chile

26.9.18

Gelado de requeijão de cabra, limão e pistácios

Gelado de requeijão de cabra e pistácio (com ameixas)

O tempo de guardar a sorveteira ainda não chegou. Diz o calendário que mudou a estação mas o sentimento geral, com temperaturas altas e dias cheios de sol, é que a meteorologia pede comidas e bebidas à sua medida. E mesmo que as rotinas tenham mudado, nada nos impede de aproveitar os fins de tarde com ceús coloridos com que Setembro nos tem brindado.

Com as flores que restam nos jardins e algumas corajosas que estão a despontar, a paisagem está longe de corroborar a vontade de tantos já prontos para dias mais frescos. Por cá celebramos o Outono com gelado. E não podia ser mais fácil!

Gelado de requeijão de cabra e pistácio (com ameixas)
Gelado de requeijão de cabra e pistácio (com ameixas)

A técnica é simples, os procedimentos são rápidos e a textura é perfeita. A diferença é feita pelo ingrediente estrela desta receita: o requeijão de cabra adiciona profundidade de sabor e a combinação com o limão e os pistácios funciona muito bem. Porque o gelado tende a congelar quando fica muito tempo no frio, deve ser retirado uns minutos antes de servir. Depois é só fazer bolas mais ou menos direitinhas e enfeitar para que os olhos também comam.

Votos de um Outono feliz!

Gelado de requeijão de cabra e pistácio (com ameixas)

7.9.18

Celebrando o Verão no Areal Beach Bar by Chakall

Areal Beach Bar, Lourinhã

Talvez possa mudar o mês mas o espírito do Verão veio para ficar. Enquanto houver dias de sol, haverá praia. Na Lourinhã, o Areal Beach Bar by Chakall serve o mar português com um toque da alma argentina e das suas tradições gastronómicas, que se cruzam com os produtos da região. Esse compromisso com os sabores do Oeste estão bem presentes nos recheios de pêra rocha e de abóbora com aguardente local que fazem felizes os veraneantes mais gulosos a cada dentada. E que se há praia queremos bolas de Berlim!

O espaço ali mesmo à entrada da praia é a menina dos olhos de Silvina Lopez, a irmã do chef Chakall, que comanda a sala sempre com um sorriso. Os surfistas que chegam, os amigos que vêm beber um copo depois de um mergulho e quem vem para jantar junto à praia, para todos há locais especialmente pensados para a melhor experiência, entre o varandim e a sala VIP. Também a oferta se adapta às vontades e desejos de cada um, com uma carta inclusiva onde se encontram propostas tradicionais a par de opções para todas as escolhas alimentares.

Areal Beach Bar, Lourinhã

Num dia às caretas, o almoço começou alegre com um colorido hummus de beterraba e legumes crus e um Cao Cao de Gambas, prato que faz uso de um ingrediente estrela - a batata doce de um produtor local mesmo ao lado do restaurante, numa boa combinação com cebola roxa crocante, coentros e lima. Já a Salada Phuket chega colorida com abacate, frango com caril, queijo feta, tâmaras e molho vinagrette de mel, para deleite de quem gosta de doce e salgado em dose certa e pretende uma refeição leve.

Mas são umas maravilhosas Empanadas Argentinas, servidas com molho chimichurri, que teimam em não sair da memória. Qualquer passagem pelo Areal Beach Bar deve sempre começar com estes embrulhos estaladiços recheados de carne, mesmo se os pratos de grelhados (igualmente recomendáveis) nos esperam mais à frente na refeição.

Areal Beach Bar, Lourinhã

14.8.18

Salada de Verão (meloa, chouriço e requeijão de cabra)

Salada de meloa, choriço e requeijão de cabra

A nossa mesa espelha sempre o momento, seja fazendo uso dos ingredientes da estação, seja pela escolha de receitas que vão ao encontro do espírito presente. Com as férias no horizonte e o mar à nossa espera queremos pratos fáceis e coloridos, plenos de sabor e capazes de nos alimentar até à próxima refeição ou que possam ser partilhados com amigos, à boleia de um copo de vinho e muita conversa perdida, num piquenique ou em almoços despreocupados.

Dos pequenos/grandes prazeres da vida, comer com companhia e uma vista privilegiada talvez seja dos menos valorizados. O retorno, contudo, vale cada segundo em que o olhar se prende nos pormenores das flores de lavanda que mexem com o vento ao fundo do canteiro, da borboleta que esvoaça do lado esquerdo e da água que não mexe junto à janela. Pudesse eu deixar de pensar na combinação de texturas, cores e sabores do prato à minha frente e tudo seria ainda mais idílico.

Salada de meloa, choriço e requeijão de cabra
Salada de meloa, choriço e requeijão de cabra

Porque Verão pede saladas e a fruta este ano tem sido excelente, não há razão para não fazer da meloa ingrediente principal do almoço. Desta feita a cor que predomina é o laranja, graças à variedade cantaloupe mas a receita resulta igualmente com outra meloa. Do tomate cereja vêm os tons de amarelo, vermelho e castanho e há ainda a cebola roxa e o pepino marinado e umas folhas de manjericão. O segredo da receita está na combinação entre as rodelas fitinhas de chouriço e o sabor único do requeijão de cabra, num equilíbrio entre o doce e o ácido que é perfeito!

Esta Salada de Verão pode servir como entrada para um jantar mais formal mas a sua verdadeira natureza cumpre-se numa saladeira grande onde cada um se serve, com uma fatia de bom pão e uma fatia extra de requeijão de cabra. Almoçamos?

Salada de meloa, choriço e requeijão de cabra

3.8.18

Vinhos Verdes para beber em Agosto (e uma ode ao Alvarinho e ao Loureiro)

Verde que te quero verde - Vinhos

Verde que te quero verde. Não é cor mas tempo que dá aos Vinhos Verdes a sua alma e lhes confere um perfil único. Talvez a história não lhes preste (ainda) a devida atenção e os diferentes vinhos sejam olhados como se fossem idênticos, o que não pode estar mais longe da verdade. De características muito próprias graças a castas como o conhecido Alvarinho e o Loureiro, entre outras, é nos aromas florais e furtados que se desenvolve o leque de descritores que melhor traduzem algumas das uvas brancas mais emblemáticas destes vinhos.

Neste Verão resolvemos fazer dos Verdes objecto de desejo e abrir horizontes provando alguns brancos da região vinícola que se estende do Atlântico até à Galiza e tem por vizinho o Douro, entre o rio e a montanha. E porque não há como trazer para a mesa os vinhos para os apresentar à comida, fica também a sugestão de harmonizações felizes para cada um.

Feliz Agosto!

Verde que te quero verde - Vinhos

30.7.18

{ Verão na Cidade } Ceviches, causas e muita quinoa no Segundo Muelle

Segundo Muelle, Lisboa

Chega o verão e a cidade grande perde parte dos seus habitantes que rumam ao Sul. Dos encantos de quem tem Lisboa (quase) só para si ressalva-se a possibilidade de viajar no prato e ir conhecer restaurantes com sabores e aromas de outras paragens. Para inaugurar o Verão na Cidade deste ano o primeiro destino é o Perú e é no Segundo Muelle que a cozinha andina nos recebe de braços abertos.

Com o Cais do Sodré ali próximo e o rio por companhia, o restaurante que ocupa a esquina do edifício em frente ao jardim promete levar-nos até ao Pacífico. Se os ceviches se tornaram bandeira da cozinha peruana, aqui também há causas e todos os sabores da comida serrana, à boleia do ingrediente estrela que é a quinoa. E porque não há refeição completa sem um Pisco Sour, o bar ao fundo do restaurante faz magia em copos coloridos para nos manter felizes com as versões especiais de maracujá ou frutos vermelhos.

Segundo Muelle, Lisboa
Segundo Muelle, Lisboa

Tracemos então o plano da nossa viagem. Qualquer visita ao Segundo Muelle não deve fazer-se sem o afamado Cebiche Nikkei, onde cubos de atum e abacate são temperados com os sabores de fusão que caracterizam as influências nipónicas, numa harmonização com o milho peruano e ervilhas-tortas em juliana fina. A viagem pode continuar-se por pratos menos conhecidos e igualmente surpreendentes: aposta certa para quem gosta de texturas suaves é a causa de camarones, feita de puré de batata em camadas, com lima e malagueta e recheada com camarão. Para finalizar em pleno, é recomendável experimentar ainda o Risotto de quinua con lomo saltado. Das sobremesas escolha-se o Suspiro a la Limeña e haja o que houver não é possível partir sem provar a Mousse de Lucuma.

Com o itinerário decidido e prontos para a descoberta, é tempo de apreciar o couvert. Servidas num cesto, as bonitas Chifles são chips de banana pão acompanhadas com um molho picante de Aji Amarillo e pequenos grãos de milho Cancha.

Vamos até ao Perú?

Segundo Muelle, Lisboa
Segundo Muelle, Lisboa

12.7.18

Mar de Rosas: a felicidade em tons de Rosé

Mar de Rosas, Casal de Santa Maria

A manhã acordou solarenga e a viagem para Colares faz-se serenamente, com a Serra de Sintra no horizonte e o Atlântico ali ao lado. A estrada sinuosa vai acompanhando a linha de costa, desenhando-se por entre o verdejante da paisagem e uma ou outra casa a pontuar o caminho, até chegar às vinhas mais ocidentais da Europa continental. No Casal de Santa Maria faz-se vinho abençoado pela brisa marítima e pelo clima particular da região, com milhares de rosas por companhia. São elas que dão nome ao vinho rosé que marca a chegada de Nicholas Von Bruemmer à quinta. Mar de Rosas é a homenagem singela ao seu avô, cuja visão juntou as vinhas às rosas e lhes deu forma de vinho.

Nascidas do desejo do Barão Bodo Von Bruemmer, as vinhas do Casal de Santa Maria foram plantadas no início deste século quando o fundador da quinta chegou aos 95 anos. Havia de cuidar delas e tornar-se num produtor de vinhos muito especiais nos dez anos seguintes, acompanhando o crescimento de castas como a autóctone Malvasia, o seu famoso Chardonnay ou o excelente Pinot Noir. A localização perfeita, nem sempre fácil para as videiras, deu azo a brancos frescos e vegetais, tintos complexos e um colheita tardia elogiado pela sua particular acidez. Já o bonito rosé de cor salmão, na melhor tradição da Provença, nasce da vontade de Nicholas de fazer um vinho para ombrear com os rosés franceses. Nas suas palavras, um vinho complexo mas que convide à festa e que possa ser partilhado de forma alegre e despreocupada.

Mar de Rosas, Casal de Santa Maria
Mar de Rosas, Casal de Santa Maria

It's never too late é o mote escolhido para o primeiro vinho feito segundo as ideias do novo Barão. Porque nunca é tarde para começar de novo e nunca é tarde para acreditar nos sonhos. A grande mudança na vida de Nicholas Von Bruemmer e da sua mulher Myriam aconteceu no final de 2016 quando, após a morte do Barão Bodo Von Bruemmer aos 105 anos, resolveram mudar-se da Suíça para Colares. No Casal de Santa Maria fizeram a sua casa e apostaram no enoturismo que recebe visitas às vinhas, ao roseiral e à adega e oferece diferentes provas dos seus vinhos.

No dia que fomos conhecer o bonito Mar de Rosas, a natureza brindou-nos com um mar a perder de vista (sem as habituais neblinas) e muitas rosas em floração. Ainda que a meteorologia possa ser peculiar neste canto do paraíso, não há como não morrer de amores pela delicadeza serena da quinta e pela simpatia natural dos seus proprietários. Sobre o vinho que nos traz cá, o sorriso confiante e orgulhoso de Nicholas deixa transparecer a felicidade pelo resultado obtido pela equipa de enologia composta por Jorge Rosa Santos e António Figueiredo. Mas que rosé é este que harmoniza com peixes e mariscos e pede um ambiente festivo?

Mar de Rosas, Casal de Santa Maria
Mar de Rosas, Casal de Santa Maria

2.7.18

{ Escapadinha de fim-de-semana } Entre a serra e o oceano no Dolce CampoReal Lisboa

Dolce Campo Real, Turcifal

Se procurarmos bem os paraísos na terra existem à medida dos desejos de cada um. Para os que esperam sossego e uma paisagem inspiradora, a dois passos de Lisboa, a vista da serra do Socorro adivinha o Atlântico ali ao lado. Entre o campo de golfe e uma região onde o vinho é rei, fica o Dolce CampoReal Lisboa. Em busca de um descanso merecido e de uma aventura gastronómica, fazemos os poucos quilómetros que nos levam ao Turcifal. Ainda que a meteorologia continue incerta, a previsão de um fim-de-semana a dois sem outras preocupações para além de decidir o que comer ao jantar não podia ser mais risonha.

À chegada, uma ginjinha e bolachas cuidadosamente feitas pela chef pasteleira dão-nos as boas-vindas. Com tempo para aproveitar um momento de relaxamento no Mandalay Spa antes do jantar, o espírito de calma instala-se em definitivo.

Dolce Campo Real, Turcifal

O pôr do sol antecipa uma das razões que nos trouxe até ao Dolce CampoReal. No restaurante Grande Escolha o chef Rui Fernandes apresenta uma carta desenhada para oferecer uma experiência de fine dining aos hóspedes do hotel e a outros comensais que vêm apenas jantar.

A cozinha aberta sobre a sala, que é simples e confortável, é a grande atracção. Olhos em permanência nos chefs que preparam os pratos e os finalizam no balcão de passagem onde, à vez, muitos dos clientes passam para captar mais uma fotografia. Indecisos sobre o que escolher, chega à mesa o couvert, composto por diversos pães e manteigas de cabra e de ervas, azeitonas e tremoços marinados. Menos utilizados do que merecem, os tremoços gulosos desaparecem enquanto discutimos o que vamos comer e é bom augúrio encontrá-los num restaurante como o Grande Escolha. Decisões tomadas e estamos prontos para a nossa aventura gastronómica.

Dolce Campo Real, Turcifal
Dolce Campo Real, Turcifal

5.6.18

Panqueca de grão e beringela (com rebentos de rúcula)

Panqueca de grão e beringela

Bem-vindo, Junho. Todos os anos, entre os desejos de um Verão que chega e um ano lectivo que acaba, desenha-se a mistura perfeita de sentimentos contraditórios. Mais luz, mais horas de claridade, menos tempo para as gozar. Porque os almoços continuam a fazer-se frequentemente de pratos vegetarianos e a necessidade de refeições nutritivas e retemperadoras pede sabores em harmonia, nada como recorrer às leguminosas e aos legumes da estação.

São as frutas que carregam a bandeira gulosa de Junho mas os legumes mudam também e é sempre um prazer voltar a ter beringelas e curgetes para cozinhar. O tomate há-de vir mais tarde e as ervas aromáticas estão mais perto do auge. Talvez seja a vontade de virar a página e escrever novos capítulos de um amor maior pelos vegetais ou apenas a gulodice do costume. A vida é demasiado breve para almoços aborrecidos!

Panqueca de grão e beringela
Panqueca de grão e beringela

Dos livros que me fazem companhia e a que volto uma e outra vez. Este de Nadine Abensur, sem fotografias, nem imagens, faz-me sempre partir para outras paragens em renovadas aventuras vegetarianas. É de lá que vem esta "panqueca" feita no forno, com raízes na farinata italiana, e cobertura de beringela. Fez-se almoço um destes dias em que tirámos do armário as camisolas que são farda por estes dias.

E enquanto não chega o calor, liga-se o forno. Usam-se os rebentos de rúcula que crescem no parapeito da janela da cozinha e engana-se a ânsia de um Verão que não vem com o doce possível de uns tomates cereja. Feliz Junho!

flores
Panqueca de grão e beringela

22.5.18

Da lata para o prato no novo restaurante da Loja das Conservas

Loja das Conservas, Lisboa

As conservas são fruto da paixão pelo mar que sempre marcou a cultura portuguesa e da capacidade de invenção de quem desenvolveu esta forma de preservação. A garantia que peixe chegava à mesa mesmo depois de ter terminado a campanha ou passados muitos meses depois da apanha fez das conservas um alimento popular. A Loja das Conservas reúne no mesmo espaço um conjunto extenso de produtores e uma sem número de latas onde o conteúdo é sempre promessa de mistério. Sardinha, cavala, petinga ou outro qualquer dos pequenos peixes que chega à lata contam uma história que hoje também se escreve com a conserva de moluscos, ovas ou mesmo do fiel amigo para todos os gostos e carteiras.

Se as conservas passaram a ser vistas como um símbolo de Portugal, o seu consumo mudou também. A vontade de provar e utilizar as conservas nas receitas do dia-a-dia fizeram com que a Loja das Conservas também se tornasse restaurante. Ou melhor, no plural, restaurantes! Agora nas lojas da Baixa e do Cais do Sodré também se pode explorar uma ementa que é, exclusivamente, construída em torno das conservas. A variedade e inúmeras possibilidades que se abrem no receituário fazem das Chamuças de Atum com Caril uma daquelas variações com tudo para dar certo. Aromatizadas com laranja e com adição de cenoura, é na massa que se ganha a perfeição destes embrulhos de sabor intenso.

Loja das Conservas, Lisboa
Loja das Conservas, Lisboa
Loja das Conservas, Lisboa

Seguindo os mesmos princípios de reinventar pratos a partir da utilização de conservas, os chefs André Palma e Tiago Neves foram buscar aos enchidos inspiração para a sua Morcela de Sangacho. De cura certa e todos os aromas presentes, a experiência de assar a morcela e comê-la às rodelas é aqui levada ao extremo num prato com muita piada. Para os amantes da tempura, é nas Sardinhas, Picante e Fumada, em Tempura de Limão com Molho de Iogurte e Pepino que se encontra uma utilização nova das conservas com os sabores de sempre. Mas o almoço havia de trazer mais surpresas, entre clássicos e outra pratos muito inovadores.

4.5.18

No Refeitório do Senhor Abel há pizzas para todos

Refeitório do Senhor Abel

Não fosse o Norte continuar no mesmo sítio e quase parecia não estarmos em Lisboa. Marvila tem o encanto de um bairro onde o ontem, o hoje e o amanhã se encontram em amena convivência. A pulular em acção, a cena gastronómica tem terreno fértil para se desenvolver a grande velocidade por entre a herança dos edifícios e a vontade de fazer bem de gente criativa. No Refeitório do Senhor Abel há livros em estantes, poesia nas paredes e um forno que promete as melhores pizzas. A casa onde funcionaram os antigos armazéns Abel Pereira da Fonseca é agora lar de sabores italianos, cocktails originais e energias literárias sob o olhar atento de um dos maiores poetas portugueses.

Ali ao lado, com uma ligação que dá passagem directa do restaurante, fica o Heterónimo Baar. Homenagem às múltiplas personagens que fazem de Fernando Pessoa o poeta de todas as palavras, neste baar encontra-se um "a" extra para abarcar os heterónimos Bernardo Soares, Álvaro de Campos, Alberto Caeiro e Ricardo Reis. Aqui são os cocktails quem mais manda e não há melhor sítio para começar a pensar no jantar, à boleia de um intemporal Negroni.

Refeitório do Senhor Abel
Refeitório do Senhor Abel