19.10.10

[Memórias de uma] açorda de camarão

Açorda de camarão

Há uns dias o Pedro Rolo Duarte escreveu um texto sobre a açorda que mudou tudo. [É um elogio à vontade de comer, ao prazer de cozinhar e às memórias que alimentam a saudade. E como tudo aconteceu a partir de uma açorda de camarão cozinhada pela noite dentro.] Dei por mim a ler sossegadamente e a pensar como as minhas memórias de uma açorda de camarão se tornaram também abruptamente marcantes.

A açorda de camarão que nunca esqueço cozinhou-se num dia de Setembro com os restos perdidos de pão, camarão e caldo do dia anterior. Sei que era terça-feira e que estava calor. Sei que tinha um vestido de alças em tons de azul com flores amarelas e umas havaianas azul turquesa. Sei que almocei sozinha. Ainda com a cabeça nos livros da manhã, demolhei o pão, "enrolei" a açorda no azeite e alho, deitei numa tigela, polvilhei com coentros e liguei a televisão. Fui comendo enquanto me sentava no chão da sala. Era tarde e já se preparava o fecho do jornal (que nunca aconteceu) com uma notícia de última hora. Reconheci Nova Iorque e não percebi. Como ainda não percebo, numa meia perplexidade que se reaviva a cada açorda de camarão que como. São memórias à força de uma açorda que mudou tudo.

Ou o tudo que mudou a açorda.

Açorda de camarão

Açorda de camarão

2 porções individuais

8-10 camarões médios
1 cebola pequena, inteira
1 dente alho pequeno, picado finamente
1 colher (sopa) azeite
4 fatias grossas de pão alentejano, cortadas em cubos
1 ovo grande, ligeiramente batido
2 colheres (sopa) de coentros picados

Numa panela pequena, coza o camarão com a cebola durante 2 minutos em cerca de 600-700ml de água com sal. Descasque e retorne as cabeças e cascas para a panela, deixe levantar fervura de novo e ferver um pouco. Tape e deixe arrefecer ligeiramente. Coe o caldo e volte a aquecer. Deite sobre o pão e tape a tigela com um prato. Deixe o pão absorver todo o líquido e bata com uma colher de pau até quebrar os pedaços maiores. Coloque o azeite e o alho num tacho de fundo grosso e aqueça. Junte o pão. Mexa até ferver e junte os camarões picados (reserve 1 ou dois por pessoa para guarnecer). Deixe "enrolar" (ou seja, começar a formar uma bola) e retire do lume. Adicione o ovo batido, mexendo sempre. Sirva a açorda de imediato, guarnecida com os camarões reservados e polvilhada generosamente com coentros picados.

12 comentários:

  1. Que óptimo aspecto!
    Deve ter ficado uma delicía.

    http://asvezescozinheira.blogspot.com

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  2. Há memórias que são assim, marcantes. E que voltam a nós por coisas tão simples... A tua veio por uma açorda.

    E essa, é deliciosa...

    Beijinho*

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  3. E com esta conversa toda vieram-me a memoria as melhores acordas de camarao que ja comi ate hoje e uma vontade enorme de comer acorda de camarao.

    Beijinhos

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  4. Um prato bem simples e tão bom!!
    É engraçado como as memórias de certos momentos marcantes, ficam associadas a um certo sabor, neste caso um belo sabor.
    beijos grandes

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  5. Esse dia está na memória de todos nós. Ainda bem que houve algo delicioso ligado a tão triste notícia. Não que amenize a desgraça mas sempre ajuda um bocadinho :)

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  6. Amiga, fui ler o texto do PRD e, como sempre, deixei-me levar pela poesia das palavras.
    Infelizmente as tuas memórias são mais duras, mas é disso que se se faz a nossa história, de bons e maus momentos, cada um deles à sua maneira inesquecíveis.

    Eu sou "açordeira", gosto imenso.
    :)

    Beijinhos

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  7. Adorei o blog, lindo e delicioso,rs
    Parabéns!!!!

    http://cozinhainformal.blogspot.com

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  8. as memoria por vezes sao dificies
    mas a açorda adoça-nos a boca esta u espectaculo
    beijinhos e bom fim de senaba

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  9. Suzana,

    Lindo texto, adorei. Uma açorda de camarão realmente é prato de abalar as estruturas, de mexer com as pessoas, com o que elas carregam de mais profundo. Tal é o poder concedido a certos pratos.

    C.

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  10. Que texto mais bonito e poético. Deu mais vontade ainda de fazer esta açorda que não conheço. O que não é o poder das palavras bem escritas. Imprimem até uma memória que não existe.

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  11. Gosto tanto de açorda, começando na de camarão e acabando na de espargos frescos.Lindas as fotos.De tal modo que, mesmo os não apreciadores ficam com vontade de a comer.Desejos de boa semana

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