2.6.21

Encruzado do meu coração: vinhos à prova com um ecrã pelo meio

Encruzado do meu coração

Entre castas tintas e brancas e regiões muito diferentes umas das outras inscreve-se uma cultura do vinho particular que faz de Portugal um bom lugar para quem quer explorar, a partir do copo, um território único e cheio de nuances. Das castas autóctones às castas importadas que encontram condições excelentes para desenvolver as suas características próprias, há um mundo de possibilidades que nunca deixa de surpreender. No coração do país, em pleno Dão, cresce uma casta com mistérios mil que tem encantado enófilos convictos e alguns amadores.

Com o adiamento de inúmeros eventos enogastronómicos e a vontade de continuar a saber mais sobre vinho, o Público organizou uma experiência totalmente digital que trouxe a nossa casa um Portugal à Prova. Munidos de copos e saca-rolhas, caderno e caneta e uma tábua de petiscos, à hora marcada lá nos pusemos à frente do ecrã para ouvir o Manuel Carvalho falar sobre a uva misteriosa e fascinante que é a Encruzado e com ele partilhar ideias sobre os vinhos à prova. Foi um final de tarde bem passado, que nos deixou com vontade de repetir. Venha o próximo!

Encruzado do meu coração

Para a posteridade e para a garrafeira (porque os vinhos Encruzado envelhecem bem), aqui ficam os vinhos provados à boleia de uma conversa e dois ou três petiscos.

28.5.21

Lasanha fingida de vegetais (ou a vida num prato)

Lasanha fingida de vegetais

Por onde começar? Talvez pelos meses que passaram e pelo muito que não foi escrito e mostrado por aqui. Não que a cozinha e a mesa tenham parado. Cozinhou-se e comeu-se muito, fotografou-se algumas vezes, desgostou-se quase nunca e fez-se as pazes possíveis com os dias mais difíceis. Depois chegou a Primavera e com ela apareceu a esperança. E as favas. E os outros vegetais.

Pudesse um prato oferecer a síntese perfeita para a nossa vida nos últimos meses e seria uma lasanha: repleta de camadas, cheia de ingredientes diferentes, morosa na confecção e capaz de nos queimar a língua à primeira garfada mais apressada. Se quiséssemos ser ainda mais rigorosos, a tal lasanha viria com aspas ou seria apelidada de fingida. É que nem tudo o que parece é e há sempre mais uma surpresa.

Lasanha fingida de vegetais


A receita é do genial Nigel Slater, do seu livro Greenfeast dedicado à Primavera e ao Verão. As (pequenas) adaptações são nossas e resultam dos vegetais e do queijo que havia, mantendo o espírito da receita original. A lista (longa) de ingredientes não deve assustar. É que tudo se faz com facilidade e saltando um ou outro passo o resultado continua certamente a valer a pena. 

Porque ainda se pode ligar o forno e uma receita com muitos passos (que exigem sobretudo gestos e técnicas simples) é uma forma de terapia, eis a receita para mentes a precisar de um escape e estômagos que requerem consolo. 


Lasanha fingida de vegetaisLasanha fingida de vegetais

21.12.20

Livros favoritos 2020

Livros Favoritos 2020

Salvação da alma e consolo do corpo, os livros são para quem os guarda perto do coração sinal de esperança e luz brilhante em dias de nevoeiro. Talvez mais ainda do que noutros anos, foi entre as páginas de novos e velhos amigos que 2020 se fez suportável: sorrisos, lembranças ou como construir memórias boas onde nascem dificuldades e sobeja a ansiedade. Se a resposta completa não está entre os livros, há certamente uma pista ou um caminho que surge das palavras, se condensa na fotografia e vira registo no papel. Porque este (ainda) não foi o ano que o digital ganhou terreno nas nossas leituras.

Das escolhas, sempre pessoais e irrepetíveis, estes foram os 5 livros favoritos feitos companhia, viagem e inspiração no ano que agora termina. Como fazer pão e o que fazer com o pão, como viajar sem sair de casa e voltar a lugares onde já fomos felizes ou todas as palavras, que são sempre poucas, para pensar, viver e ser o que se come em cada segundo. Gratos, sempre, aos livros por nos salvarem os dias!

Livros Favoritos 2020

1.11.20

Pão-de-ló com azeite virgem extra e 13 anos a alimentar um blog

Pão-de-ló com azeite

Treze. Fizesse a superstição parte de quem somos e a justificação estaria encontrada. No mais difícil dos anos partilhamos os desafios de todos e a eles juntamos a perda que nos enche os dias. Enorme e insuportável. Da tristeza e das saudades fazemos coragem para seguir em frente com um sorriso no rosto e a vontade inabálavel de viver muito e bem. Porque a esperança de que um tempo melhor possa chegar nos faz caminhar com mais firmeza e cada novo dia oferece sempre mais uma oportunidade de sermos felizes.

Se a vida nos manteve longe deste blog, ele é — continua a ser — espaço de partilha e memória, de luz e inspiração. Dos anos que passam fica a certeza que aqui somos sempre relembrados da enorme sorte que é poder cruzar os dias com seres e lugares irrepetíveis, através do prato e do copo, à mesa ou por aí. E que mais aniversários se seguirão.

Pão-de-ló com azeite
Pão-de-ló com azeite

Sobre o bolo que é pretexto para celebrar mais um ano de vida por aqui, ele é tudo o que mais prezamos. Nasce feito de tradição e renovação e muda o que é preciso para ser ainda mais perfeito quando perfeição é coisa que não falta a um pão-de-ló. Este sai direitinho das mãos do chef Nuno Mendes no seu livro Lisboeta, um livro bonito que exalta a maravilha que é Lisboa e a gastronomia portuguesa.

À receita mãe feita de açúcar e ovos e um tudo nada de farinha junta-se o azeite virgem extra. Com ele o bolo ganha uma nova textura mas é o sabor que sai vencedor. E há lá maior alegria que voltar onde somos as boas-vindas estão sempre garantidas e ter uma fatia de bolo à nossa espera. Venham mais treze!

Pão-de-ló com azeite

25.5.20

Cogumelos Portobello com recheio de folhas de beterraba e parmesão

Cogumelos Portobello com recheio de beterraba e parmesão

Almoço para dois e um frigorífico repleto de vegetais, legumes e cogumelos. Chega-se a meio da semana e vão estando, aqui e ali, legumes cozidos ou partes menos nobres de alguns vegetais. A rama das beterrabas é um desses mal-amados que, injustamente, não merece a atenção devida e é, por alguns, descartada. Deliciosa e cheia de cor pode ser utilizada em vez de espinafres e faz boa figura em sopas, massas ou salteados.

São os cogumelos Portobello que pedem para ser estrela da refeição. E o palco deixa-se conquistar por estes fungos imensos que, com a sua textura e sabor, ganham sempre a primazia do prato.

Cogumelos Portobello com recheio de beterraba e parmesão

A decisão de manter inteiros e rechear os cogumelos surge à última hora, à boleia da tal rama de beterraba. Em rigor, qualquer recheio por mais simples que seja pode ser utilizado, incluindo ervas aromáticas picadas misturadas com a "crosta" de queijo parmesão e migalhas de pão que cobre o cogumelo. E também o queijo pode ser outro, por exemplo, mozzarella curada ou até queijo da ilha ralado.

E fez-se almoço, com arroz de favas e couve na frigideira!

Cogumelos Portobello com recheio de beterraba e parmesão
Cogumelos Portobello com recheio de beterraba e parmesão

11.5.20

Alimento para uma quarentena (III) - Um cabaz, Petiscos de açúcar e de mel, um branco do Douro e rótulos para uma garrafa

Alimento para uma quarentena

Mudam-se os tempos, resistem as vontades e alguns desejos. Ficam memórias das idas semanais ao mercado, as conversas com quem planta e cria o que comemos e a memória de vinhos partilhados com quem os pensa e produz. Das portas que se fecham, uma janela que se abre aos cabazes que chegam a casa e o eterno retorno aos livros dos amigos que nos alimentam a alma. E se o tempo abundar e a criatividade também, é pôr na garrafa o rótulo pensado para o vinho preferido enquanto se sonha com o que virá. Mais uma semana, mais uma mão-cheia de coisas que fazem o nosso dia-a-dia melhor.

27.4.20

{ Cozinha de Cabaz } Salada de Couve-Rábano com vinagrete de mostarda e amêndoas torradas

Ingrediente Secreto: Salada de Couve-Rábano com vinagrete de mostarda e amêndoas torradas

Uma bênção em tempo de quarentena é ter quem cuide de nós e garanta a nossa alimentação. Receber em cabaz os vegetais da estação é aceitar o desafio de sair da zona de conforto. A sazonalidade é quem mais ordena e come-se o que a terra dá, em maior ou menor abundância, naquele preciso momento. Por vezes, o que nos chega a casa pode ser diferente das escolhas que faríamos por nós, em que o já conhecido e já provado tende a imperar.

Quando na semana passada o nosso cabaz do Freixo do Meio trouxe uma enorme e bonita couve-rábano roxa, o desafio estava lançado. O que fazer com ela? Procurar informação online, perguntar a quem sabe mais ou apostar em receitas de sempre para novos ingredientes (e esperar que não haja azar) são estratégias possíveis. Mas primeiro é necessário ficar a conhecer melhor o ilustre desconhecido do nosso cabaz.

Ingrediente Secreto: Salada de Couve-Rábano com vinagrete de mostarda e amêndoas torradas
Ingrediente Secreto: Salada de Couve-Rábano com vinagrete de mostarda e amêndoas torradas

Como o seu nome indica, este vegetal de folhas em riste e bolbo proeminente é da família das brássicas, partilhando características com os seus "primos" nabos e couves. Se a aparência permite identificar os familiares mais próximos, o sabor é um compromisso entre os dois e fica entre a doçura da couve e o picante do nabo. Comer em cru um vegetal com sabor subtil é sempre boa ideia, sobretudo se o tempero por via de um molho (e algo mais que adicione cor e textura) se juntar à equação. As escolhas desta vez foram as amêndoas torradas (para conferir textura) e a cor do cebolinho picado (para alegrar o prato).

Num almoço em dia cinzento, a salada acompanhou uns hambúrgueres de perú e limão, nesta versão mais mediterrânea, com tomate-seco e azeitonas picadas e servidos com rúcula e molho de iogurte e cebolinho.

Ingrediente Secreto: Salada de Couve-Rábano com vinagrete de mostarda e amêndoas torradas