4.12.19

Gastronomia de Bordo e uma caldeirada em Peniche

Gastronomia de Bordo, Peniche

No oceano sem fim que se estende para lá da barra de Peniche, o olhar fixa-se nos barcos que vão para a faina da tarde. O acordo de cavalheiros faz com que partam todos à mesma hora e as condições sejam iguais para quem vai em busca do peixe que o mar dá. Da vida difícil que o mar oferece, há toda a história de uma comunidade de pescadores que melhor que ninguém conhece os rigores da pesca.

O festival Gastronomia de Bordo promove a comida feita no mar pela mão de quem faz chegar o peixe à nossa mesa e celebra os processos simples, ingredientes comuns e a sabedoria sem fim dos pescadores. A alma do festival e sua curadora é a chef Patrícia Borges cujo trabalho, juntamente com os municípios de Peniche, Ílhavo e Murtosa, permitiu pelo segundo ano consecutivo pôr em marcha nova edição e fazer a festa da gastronomia de bordo na restauração e nos mercados dos municípios envolvidos.

Gastronomia de Bordo, Peniche
Gastronomia de Bordo, Peniche

A caldeirada é uma instituição da cozinha tradicional portuguesa e um elogia à simplicidade. Junto ao enorme tacho de alumínio, é Fernando Correia, pescador reformado e senhor de uma excelente caldeirada, que está aos comandos do nosso almoço. Diz ele que sem navalheiras e sem sardinha, a caldeirada nunca obtém o nível de sabor que deve ter. A mistura de peixes pode variar, com o safio, a raia e o cantaril a juntarem-se à festa, em camadas meticulosas de batata, temperadas com tomate e pimento e generosamente regada com cerveja.

Quando chegamos já o borbulhar lento anuncia os aromas que deixam o fogão e nos fazem salivar. Se o processo é simples e os ingredientes humildes, há que ter a virtude de esperar que o tempo faça a sua magia. O senhor Fernando escolheu servir-nos a raia com a caldeirada e todos os "acompanhamentos", em jeito de prato principal. A surpresa maior chegou com a massinha feita do caldo e guarnecida com a carne das navalheiras e pequenos pedaços de sardinha. O segredo é deitar umas gotas de vinagre antes de comer e apreciar os coentros acabados de cortar. O céu na terra! Ou será o mar em terra?

Gastronomia de Bordo, Peniche
Gastronomia de Bordo, Peniche

25.11.19

Caminhos Cruzados, o Titular Dão Novo e o elogio do Outono

Caminhos Cruzados, Titular Dão Novo 2019

Com a chegada de Novembro, as celebrações fazem-se de castanhas, dióspiros, medronhos e vinho novo na adega Caminhos Cruzados. Estamos em Nelas, no coração do Dão, e aqui trabalha-se todos os dias com memórias construídas em torno dos vinhos que fazem a história da região e a trazem para um merecido lugar de destaque. Se esta foi a primeira região demarcada do país, os segredos e os encantos do Dão estão ainda por descobrir e há todo um mundo vínico para explorar.

Aqui os vinhos são tão especiais como a paisagem e as pessoas, aliando uma elegância serena à dinâmica da diversidade. Da paixão que dá corpo às palavras de Lígia Santos fica a certeza de que estes vinhos são a sua casa e explicar as razões que a levaram a regressar a Nelas para liderar este projecto de família deixa-lhe um brilho novo nos olhos. O convite para conhecer a adega e descobrir onde tudo acontece é aceite com energia por um grupo bem-disposto e curioso.

Caminhos Cruzados, Titular Dão Novo 2019
Caminhos Cruzados, Titular Dão Novo 2019

À medida que o caminho se faz pela adega de linhas direitas e naves cruzadas vão sendo mostrados os diferentes passos que as uvas seguem até à vinificação. Com a curiosidade sobre o primeiro vinho da vindima a crescer, queremos saber mais sobre as suas características. Feito à imagem do Beaujolais Nouveau, o Titular Dão Novo 2019 resulta de uma ideia do enólogo Manuel Vieira e é feito a partir da casta Jaen com o intuito de ser consumido de imediato e estar pronto para as castanhas e a celebração dos aromas e sabores do Outono.

Já de volta à loja, é tempo da prova do primeiro vinho da vindima e o ambiente de festa ajuda a descobrir o seu carácter versátil e descomplicado. O Titular Dão Novo 2019 é um vinho harmonioso, fácil de gostar e que convida à conversa: bem-vindo!

Caminhos Cruzados, Titular Dão Novo 2019
Caminhos Cruzados, Titular Dão Novo 2019

11.11.19

Bolo de ameixa e framboesa (e 12 anos a cozinhar, fotografar e escrever)

Bolo de ameixa e framboesas

Os dedos das mãos já não chegam para os contar. 12. São doze. Número que se faz de tantos momentos mágicos que escolher é impossível e nem a vida com os seus imperativos os torna menos especiais mesmo se celebrados com enorme atraso. Este blog fez anos no início do mês e continua tão (im)perfeito como no primeiro dia. Se mudou, se todos mudámos, se já ninguém lê e menos cozinham, todos comem e muitos adoram comer. Por isso, enquanto houver vontade, enquanto a curiosidade nos levar, enquanto o final do dia nos encontrar com um sorriso e a certeza de ter valido a pena, havemos de continuar esta conversa.

De olhar no futuro e gula sem fim, espera-se que mais um ano traga festa e bolo, como deve acontecer em todos os aniversários. Com a proverbial chávena de chá, puxem uma cadeira, estão abertas as celebrações!

Bolo de ameixa e framboesas
Bolo de ameixa e framboesas

O bolo, que se faz de festa, não podia ser mais simples e rápido de fazer. E como é bonito e cheio de fruta, quase não conta como sobremesa. As últimas ameixas e uma mão cheia de framboesas esquecidas pintam a base feita de amêndoa e aromatizada com amaretto. Depois de cozido, polvilha-se com açúcar em pó e serve-se acompanhado por crème fraîche. É tudo o que se pode querer quando se completam 12 anos de momentos sempre felizes.

Que seja sempre assim por aqui. Obrigada!

Bolo de ameixa e framboesas
Bolo de ameixa e framboesas

4.11.19

{ Viajar no Prato } Há pizzas para todos no L'Origine

L'Origine, Lisboa

De volta às rotinas num Outono que se instala de mansinho,, não há melhor para alimentar a alma do que viajar no prato. O destino desta feita é a Itália, com o desejo de pizza a ganhar a dianteira. É no L'Órigine que, sem bagagem mas com toda a vontade, nos fazemos à aventura pela cozinha italiana na cidade de Lisboa.

O nosso guia para descobrir os segredos da massa e explorar os encantos dos sabores transalpinos é o chef Roberto Mezzapelle que a partir dos seus dotes de pizzaiolo nos leva até ao detalhe de cada combinação e partilha a emoção de pensar e executar cada prato da carta. Na companhia de um limontejo tónico ficamos à conversa sobre o encontro de Roberto com o chef Chakall do qual nasceu o L'Origine até a mesa nos chamar, por já ser hora de almoço.

L'Origine, Lisboa
L'Origine, Lisboa

Numa casa em que o forno é o coração do projecto, são os pães que iniciam a contenda trazendo à boleia os queijos italianos, as ervas aromáticas e os frutos secos num conjunto harmonioso e cheio de sabor que faz da Burrata com pesto de manjericão e pinhões um prato absolutamente a não perder. Já a foccacia clássica tem tudo o que se pede a um antipasti: é crocante, saborosa e abre ainda mais o apetite para o que aí vem.

Mas um restaurante italiano não se faz só de pizza e os carpaccios oferecem um início de refeição em que a discussão também passa pelos vinhos italianos que fazem parte da carta do L'Origine. As possíveis combinações com os ingredientes dos carpaccios fazem do salmão laminado, pimenta rosa e azeite de limão, do bacalhau laminado, creme balsâmico de morango, azeite de laranja e limão, sal e pimenta e do carne de boi, parmesão, azeite de limão e balsâmico de vinagre os escolhidos da mesa. Quanto à decisão sobre os vinhos e as pizzas a partilhar, não há consenso. Valha-nos estarmos de acordo quanto a quanto mais italiano melhor!

L'Origine, Lisboa
L'Origine, Lisboa

24.9.19

Em Vila de Frades, na Adega ACV faz-se vinho como os romanos faziam

Adega de Vila de Frades, a fazer vinhos como os romanos

Fugimos do sol do Alentejo e encontramos refúgio para lá das portas da Adega ACV junto às talhas onde repousa o néctar dos deuses. O processo de vinificação que remonta aos romanos chega aos nossos dias inalterado e o resultado deste método natural traduz-se num conjunto de vinhos surpreendentes e com características muito diferentes do habitual. A história da adega escreve-se a partir da vida da família Frade e da sua relação com a produção do vinho de talha, que começa na taberna do avô Frade onde todos paravam para um copo e alguns petiscos em Vila de Frades.

O enoturismo recentemente inaugurado é herdeiro dessa tradição familiar, da vontade do pai Alexandre (que estudou enologia para compreender melhor e aprimorar todo o processo) e do filho Sérgio que traz os vinhos até ao seu restaurante O Frade em Lisboa. Com a adega como ponto de partida, seguimos à aventura para saber mais e conhecer os vinhos de talha que se fazem nesta vila alentejana e que perpetuam a herança histórica da região.

Adega de Vila de Frades, a fazer vinhos como os romanos
Adega de Vila de Frades, a fazer vinhos como os romanos
Adega de Vila de Frades, a fazer vinhos como os romanos

A visita à adega começa com a explicação do processo de preparação das talhas e do tratamento das uvas, etapas que são essenciais na definição do vinho que daí irá resultar. A apresentação feita por Alexandre Frade, num compromisso entre rigor técnico e a explicação dos procedimentos, é clara e concisa e as perguntas da audiência permitem adequar a comunicação. Cada questão é respondida até que não restem dúvidas sobre a pesgagem das talhas, as especificidades desta técnica de revestimento e o sistema desenvolvido para optimizar todo o processo de cobertura das enormes talhas com resina de pinheiro (ou pêz).

Entre as grandes talhas e fora do alcance do sol alentejano, começamos a prova dos vinhos de talha da Adega ACV com os brancos. O estágio de quase cinco meses nas talhas antes do engarrafamento confere características muito particulares ao vinho. Também os nomes dados a cada vinho representam uma parte da história da família, como a homenagem à mãe de Sérgio que dá nome ao D. Alice Branco 2016 e D. Alice Branco 2017 ou o 1856 Branco 2016 que deve a denominação à data da talha onde estagiou. Juntamente com o Escolha Branco 2016 compõem o conjunto de quatro vinhos brancos produzidos pela adega e que oferecem uma experiência muito especial a quem os prova. Vivos e com muita personalidade, trazem de forma vincada, os aromas e sabores do método que os produziu e desafiam quem se diz menos apreciador dos vinhos brancos. Também há tintos, mas esses contam outra estória.

Adega de Vila de Frades, a fazer vinhos como os romanos
Adega de Vila de Frades, a fazer vinhos como os romanos

10.9.19

Saladinha de cenouras à Algarvia

Saladinha de cenouras à Algarvia

Sonhos, saudades e o desejo de prolongar as memórias felizes de umas férias a Sul. O Algarve ainda à flor da pele toma a forma dos sabores conhecidos e adorados, repetidos a cada ano, numa espécie de reencontro com velhos amigos.

Peixe, salada e todo o doce da fruta de Verão a celebrar o tempo (curto) de praia. E, contudo, de todas as lembranças são as cenouras, cortadas à rodela e temperadas com o aroma dos cominhos, que mais falta fazem. Talvez não saiba ao mesmo pois faltará sempre o mar e a brisa que o caracteriza, mas colocará um sorriso maior na face de quem ainda não aceitou a mudança de ares.

Saladinha de cenouras à Algarvia
Saladinha de cenouras à Algarvia

Esta receita é servida por todo o Algarve, como entradinha, com pão e azeitonas. Serve o propósito de manter ocupadas as bocas que esperam pelo prato principal e não podia ser mais simples de confeccionar. Os temperos remetem para uma herança do Norte de Africa e a presença dos cominhos fecha a combinação ganhadora com o doce das cenouras.

Bom apetite!

Saladinha de cenouras à Algarvia

4.9.19

{ Verão na Cidade } Petiscar à grande e à japonesa no Miss Jappa

Miss Jappa, Lisboa

Ainda há Verão para celebrar e a cidade oferece tardes longas e noites (quase) tropicais a quem se quiser aventurar. A promessa de viver Lisboa e o tempo quente como se não houvesse um amanhã de trabalho ajuda a voltar às rotinas. Como por magia, seguimos para parte incerta algures no Japão assim que entramos no Miss Jappa para um final de tarde de conversa e petiscos.

As boas-vindas escondem-se num "quantos-queres" de ervilhas com wasabi ou hóstias de camarão, num mix de snacks japoneses. Na mão, para enfrentar temperaturas inclementes, uma Sparkling Lemonade com manjericão e pepino para dar início à conversa. A passagem de testemunho da chef Anna Lins para o sempre seguro chef Rui Santos, é feita com pratos leves e a vontade de manter um trabalho em comum construído ao longo do tempo que dará à chef mais tempo para o projecto Go Natural e a Rui Santos a responsabilidade e o desafio de comandar os destinos de Miss Jappa a partir da estação estival.

Miss Jappa, Lisboa
Miss Jappa, Lisboa

Um conjunto de pratos vindos do street food japonês convida a momentos de lazer à boleia de um cocktail. É o que fazemos, a começar com uma versão bonita de Salada de kinuta saída do sushi bar e que combina 3 peixes e molho de sésamo em rolinhos coloridos onde a quinoa assume o papel principal. É fresco e saboroso e tem tudo o que se pede quando os termómetros passam os 30ºC. Mas a salada encontra competição à altura em sabor e frescura no Espadarte em crosta, com salada de batata e maiowasabi que se partilha a contragosto com a companhia. Serve de consolação o saké que vem servido em pequenos copinhos e desafia os sentidos para uma experiência nova.

Está para chegar o prato mais divertido, que mexe à medida que é transportado para a mesa e fixa a atenção de todos. Chama-se Okonomiyaki e já ganhou lugar de destaque no coração e no estômago de quem tem novo favorito nesta panqueca de couve na chapa com camarão, maionese de tonkatsu e lascas de atum seco. É o prato do momento e promete ser escolhido uma e outra vez. Ou haverá nova surpresa no horizonte?

Miss Jappa, Lisboa
Miss Jappa, Lisboa