23.4.14

Cracas, Inhame, Nêveda e os Vinhos do Pico

Vinhos do Pico

Nos Açores a paisagem encarrega-se de nos tirar o fôlego a cada passo. Talvez a mais surpreendente seja a vista do Pico a partir do Faial. Imaginar que naquelas escarpas crescem teimosamente vinhas é desde logo um desafio. Fazer vinhos com uvas criadas num ambiente com estas característica e o mar ali tão perto tem de requer perícia e uma boa dose de perseverança. A conversa sobre os vinhos dos Açores começa sem que eu dê por ela. São assim as minhas conversas com Rodolfo Tristão, a quem devo alguns dos conhecimentos mais rigorosos que possuo sobre vinho, café e harmonizações.

Da singularidade dos vinhos do Pico, em virtude das castas tradicionais utilizadas, da cultura da terra e da paisagem única, são os brancos que nos últimos anos mais ganham em qualidade e se afirmam face aos reconhecidos licorosos. Os solos pobres, os currais e a proximidade do mar são determinantes para a vinha. Fico ainda mais curiosa com o trabalho desenvolvido por enólogos como António Maçanita, responsável nos Açores por um interessante projecto de recuperação da casta Terrantez do Pico e o papel desempenhado pela ACIP, a Associação Comercial e Industrial da Ilha do Pico, sem esquecer o contributo exemplar da Escola de Formação Turística e Hoteleira de Ponta Delgada no desenvolvimento da enogastronomia do arquipélago.

Vinhos do Pico, castas Vinhos do Pico

Enquanto subo a Rua da Misericórdia, em direcção ao Bistro 100 Maneiras, penso nas especificidades da vinha açoriana e nas castas características dos Açores. Nada que me prepare para a prova cega, conduzida por António Maçanita, de vinhos monovarietais: Arinto dos Açores, Verdelho e Terrantez do Pico, as três castas da região. E menos ainda para a comparação entre vinhos licorosos dos Açores, um Xerez e um Madeira, com os açorianos de longa tradição na região a apresentarem um excelente nível. Sentada à mesa com grandes conhecedores de vinhos, estou fora da minha liga. Vou absorvendo o máximo de informação, provando e tomando notas. É surpreendente a qualidade dos brancos apresentados e o orgulho e entusiasmo dos produtores presentes.

No meu amor pelos vinhos, há uma derradeira prova. A mais saborosa de todas e aquela em que um vinho mostra a sua verdadeira natureza: é à mesa e no diálogo com o prato que nos entendemos melhor. O jantar de degustação, desenhado pelo chef Ljubomir Stanisic, é todo ele uma homenagem aos produtos dos Açores. Ananás, cracas, maracujá, inhame, nêveda ou tabaco são sabores que vão povoando os pratos ao longo da noite. Estas são as combinações dessa conversa, inusitadas por vezes, surpreendentes com frequência, em harmonizações quase sempre felizes com os vinhos do Pico.



Vinhos do Pico

Um Clássico Contemporâneo!
Foie gras fresco salteado com ananás confitado e creme de tomate inglês
harmonizado com Curral Atlântis Verdelho e Arinto dos Açores, DOP-PICO, Licoroso, Doce, 2005

O produtor Marco Faria explica o percurso deste colheita tardia, com 5 anos de estágio em barica e 1 ano em garrafa. Interessante a harmonização, com o prato e o vinho a contribuírem em partes iguais para uma melhor experiência final. Muito bem integrado o tamarilho (tomate inglês) e o ananás, a fazer sobressair o vinho, que foi servido a uma óptima temperatura.

Vinhos do Pico

Pureza do Mar
Ostras e cracas dos Açores com Kiwi e espuma do mar
harmonizado com Insula Private Selection, Arinto dos Açores, IGPAÇORES, Branco, 2013

Intenso, poderoso em sabores de mar, a receber do vinho a acidez necessária para ser quase perfeito. Nas palavras de António Maçanita é preciso "dar ao arinto condições para este ser aquilo que é e mostrar a sua natureza", aceitando a frescura, a mineralidade e a pureza do vinho. É meu prato preferido da noite, que o chef Ljubomir Stanisic me apresentou como sendo um mergulho na rebentação. Excelente.

Vinhos do Pico

São poucos os que se dão com espargos...
Risotto de espargos com salada dos mesmos, salmonete e maracujá
harmonizado com Curral Atlântis Verdelho e Arinto dos Açores, IGPAÇORES, Branco, 2013

Os salmonetes dos Açores numa combinação clássica de espargos e maracujá a que o vinho trouxe uma nova dimensão complementando o prato. De boa acidez, um surpreendente branco açoriano, onde se sente a proximidade do mar, as notas minerais e de maracujá que o prato procura ressalvar. Muito bom.

Vinhos do Pico

Bairrada à moda do Pico
Leitão com inhame e linguiça
harmonizado com Frei Gigante, Arinto dos Açores e Verdelho, D.O. PICO, Branco, 2012

A enóloga Maria Álvares fala do seu Frei Gigante 2012, o único dos brancos que eu já conhecia antes da prova, e das uvas que o tornam particular. Sou de novo enviada para as paisagens do Pico. A escolha para um leitão bem confeccionado, acompanhado de inhame, demonstra-se acertada. Guardo especialmente o crocante da linguiça em contraste com o vinho.

Vinhos do Pico

From Russia with love
Tarte de bolo de véspera com queijo do Pico, fruta, Nêveda e compota de tabaco
harmonizado com Czar, Verdelho, Arinto dos Açores e Terrantez do Pico, DOP-PICO, Licoroso, Meio Doce, 2008

Confesso que gostei muito do Czar 2008, que o seu produtor Fotunato Garcia apresenta como "um fenómeno da natureza". É um vinho feito por métodos tradicionais a partir das condições naturais das uvas, sem interromper a fermentação para a adição de aguardente. Um vinho com elegância capaz de fazer esquecer o prato, na minha opinião, menos conseguido do jantar.

No final, já a noite se faz ao caminho, sigo Rua da Misericórdia acima sozinha com os meus pensamentos. Estou certa de ter estado por terras dos Açores e ter caminhado por entre as vides nos currais. Não aconteceu, de facto. Tudo o resto foi como aqui se conta, considerando a boa companhia de pessoas e vinhos envolvidos.

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2 comentários:

  1. Um post que me encheu as medidas. Uma belíssima homenagem aos produtos da minha terra. Obrigada :)

    Um beijo,

    Ilídia

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  2. Por ser filha de mãe picoense e pai faialense fiquei encantada com este post. Costumo passar algumas semanas nestas duas ilhas encantadoras e de imediato fui transportada para lá. Achei as combinações feitas pelo chef encantadoras e sábias. Os Açores a mostrar o quão é único na sua variedade.

    Um abraço.
    Patrícia

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