25.3.11

Leite creme com canela e a primeira memória culinária

Leite creme

A década de 1970 já ia lançada quando eu nasci. Era uma época de mudanças. Tinha-se acabado de fazer uma revolução e as pessoas tinham na boca palavras como liberdade, democracia e esperança. Fui a primeira filha, a primeira neta, a primeira sobrinha. Cresci na certeza que o mundo era e sempre tinha sido como o conheci. O antes e o depois pertencem a um tempo que não vivi. A minha 'revolução' aconteceu com o nascimento do meu irmão, caminhavam os anos 70 para o seu fim. Tive de dividir afectos, colos e atenção. Fui para o colégio. Um colégio à antiga, dirigido por freiras, onde o tempo tinha parado mas onde havia sempre sorrisos e gargalhadas. Lá aprendi umas coisitas sobre liberdade e democracia. O que na perspectiva de quem tem 3 anos e meio se traduz na escolha dos motivos a desenhar e na prerrogativa de não dormir a sesta. Talvez as freiras cedo tenham percebido a minha natureza "antes quebrar que torcer". Ou talvez o fizessem por simples compaixão. Nunca dormi a sesta em nenhum dos anos que passei no colégio. Em vez disso, acompanhava-as durante a preparação do lanche da tarde. Fazíamos leite creme, arroz doce ou pudim. Eram receitas contadas em colheradas, sem grandes pesos ou medidas, que os tachos da enorme cozinha viram fazer durante décadas. Mexer a farinha Maizena com o açúcar até não se ver a diferença era a minha tarefa nos dias do leite creme. Mas o que eu queria mesmo era partir os ovos e separar as claras das gemas. E mexer o tacho ao fogão. Isso é que era! Posso? Eu quero muito. Todos os dias a mesma pergunta e a mesma resposta. Hoje não, talvez amanhã. Nova lição sobre a esperança. Lá me conformava com o polvilhar da canela sobre o doce já nas tigelas e na antevisão do dia seguinte.

Nada nesta receita é desconhecido para a minha geração e para tantas outras antes dela. Apesar disso o leite creme é uma sobremesa de outros tempos, com um certo ar retro. Tem uma história que começa há muitos séculos e que marca muitas décadas. É o doce de todas as casas portuguesas. E é também a minha contribuição para o desafio "Conte-me a sua Receita" organizado pelo Cinco Quartos de Laranja numa iniciativa da RTP.

Malmequeres
Leite creme



Leite creme

4 taças

3 gemas
500ml leite gordo
75g açúcar
2 colheres (chá) amido de milho (Maizena)
pitada de sal
casca de limão (4-5cm)
canela moída para polvilhar

Aqueça a maior parte do leite (cerca de 400ml) com o sal e o limão até quase ferver. retire do lume e reserve. Misture o açúcar com o amido de milho e deite um pouco de leite (frio) para diluir. Noutra tigela bata ligeiramente as gemas com um garfo e junte o restante leite. Deite um pouco do leite quente sobre as gemas e verta esta mistura para o tacho assim como a mistura de açúcar e amido de milho. Leve a lume brando por 8-10 minutos, mexendo com uma colher de pau sempre até engrossar. Retire a casca de limão e verta em tigelas rasas e polvilhe com canela.

19 comentários:

  1. Quando era miúda, passei uma vez a Páscoa na aldeia de uns tios, em Chaves, onde ainda se fazia o falar comunitário. A minha tarefa revelou-se inesquecível e marcante: partir os ovos! Lembro-me como se fosse hoje da montanha de ovos e casca ao meu lado e a taça a ver nascer gemas e mais gemas...
    Imagino a delícia de poder trocar a sesta pela preparação dos doces do lanche, uma excitação. :)
    Eu tb andei num colégio de freiras, mas infelizmente não trouxe recordações tão boas...

    Para mim o leite creme será sempre "a" sobremesa, precisamente assim como o apresentas, com canela. Adoro.

    Beijinhos :)

    ResponderEliminar
  2. quando era pequeno por acaso não gostava nada de leite creme.. não sei porque.. devia ser mesmo embirração..também o prefiro assim simples com canela, deixo o queimado para o brulee. As fotos estão lindas

    ResponderEliminar
  3. Lá em casa o leite creme é doce especial, feito pelo pai no Natal e Ano Novo. O motivo não é nada especial, simplesmente dá muito trabalho e nenhum de nós nasceu para ficar amarrado ao fogão a mexer a panela e a ver engrossar o creme.
    E é no dia seguinte que nos sabe melhor. De manhã, ao pequeno-almoço, a pesar no fígado logo pela fresquinha. E eu, que não gosto dele queimado, tinha sempre direito à minha tacinha à parte, com canela por cima.
    Leite creme são memórias das boas :)

    Beijo grande *
    mariana

    ResponderEliminar
  4. Que história gira!!!!Tens recordações bonitas e nota se nesse leite creme que foi feito com muito carinho e dedicação!!!

    Bjokas
    Rita

    ResponderEliminar
  5. Como me revi nestas palavras! A primiera filha, a primeira neta, a primiera sobrinha, o colégio e as freiras, a responsabilidade dos ovos, o colo repartido com o irmão mais novo e o feitio torcido....e o leite creme quentinho feito pela avó. Sem dúvida, uma sobremesa de uma geração :) Excelente participação! Um beijinho

    ResponderEliminar
  6. O leite creme também é um doces com sabor a infancia, mas prefiro com o açúcar queimado.
    Bjocas e bom fim de semana

    ResponderEliminar
  7. Onde foste tu parar minha cara amiga! As freiras deviam ser frescas e, já agora, podiam ter compaixão por ti na hora que lhes pedias para mexer o leite-creme :) Foi o doce da minha infância, o único que a minha mãe me ensinou a fazer!

    ResponderEliminar
  8. Suzana,

    que história fantástica, que momento tão especial. A tua escrita é deliciosa.

    Um beijinho e muito obrigada pela tua participação.

    ResponderEliminar
  9. Que delícia de história e de receita!... Tal como a Filipa, revejo-me também no facto de ter nascido já em liberdade, do colégio de freiras, do nascimento da minha irmã no útlimo ano da década de 70. E ainda de ter sido a 1ª filha e a 1ª neta. Grande trio que nós faríamos!...
    Babette

    ResponderEliminar
  10. Conheço bem esta receita, faço-a desde que comecei a fazer leite-creme, por minha conta e risco. Não era a que se usava lá em casa na minha infância, no tempo em que ainda não gostava de leite-creme. Mas parece que, afinal, as receitas tradicionais são, mesmo, universais.
    Parabéns pelo blog, está cada vez melhor!

    ResponderEliminar
  11. Ora bem... doces de colher, prefiro arroz doce...simples...simples. Quando era "pequeno" a maior travessa era minha, duma acentada só...Creio que é uma das primeiras "memórias culinárias" que tenho!
    Só uma coisa, 77 foi Ano Vintage....Infelizmente, 74 não!
    Parabéns manita! ;)

    ResponderEliminar
  12. Para mim leite creme e arroz doce são "Os Doces" aqueles que sabem sempre bem e que têm que estar presentes em qualquer festa.
    Exigi a presença de um deles no meu casamento contrariando toda a gente que dizia que já não se usava dessas coisas nos casamentos,o que é certo é que desapareceram enquanto "as modernices" sobraram.
    Também gosto do leite creme assim simples só com canela.
    Beijocas

    ResponderEliminar
  13. O leite creme não fez parte da minha infância nem juventude talvez porque o arroz doce da minha mãe não deixa espaço para mais doces. ehehe Se há festa de familia o arroz doce não pode faltar. Mas o engraçado é que adoro leite creme e detesto arroz doce. Curioso não? : )
    mil beijinhos

    ResponderEliminar
  14. Olá,

    acabei de ler o seu texto de sorriso nos lábios!...soube-me bem!
    Não posso dizer que os doces de colher são os que mais me tentam, mas o seu está com um aspecto verdadeiramente desafiador de forma a que eu mude de ideias... :))

    Beijinho.

    ResponderEliminar
  15. e uma das minhas sobremesas favoritas hoej em dia- sempre feita ca em feitas e impossível faltar todos adoram
    beijinhos e boa semana

    ResponderEliminar
  16. Tem graça que o leite de creme é um gosto de adulta. Quando era miúda gostava mais de bolos do que de cremes, mas abria uma excepção ao arroz doce.

    As memórias que partilhas aqui connosco, comigo só me fazem ficar a gostar ainda mais de ti... Já nos imaginaste às duas juntas com 3ou 4 anos...hehehe

    bjs

    ResponderEliminar
  17. O texto e a foto estavam uma delícia. Imagino que o leite-creme também. Um beijinhos. Ilídia

    ResponderEliminar

Obrigada pelo seu comentário!