14.2.19

{ Festival Terras Sem Sombra } Música sacra, pão artesanal e o caminho dos peixes do rio na Vidigueira

Terras Sem Sombra, Vidigueira

Uma região inteira para explorar e descobrir à boleia de um festival de música sacra, património cultural e biodiversidade. É esta a proposta do Terras Sem Sombra, que na sua 15ª edição com o mote "Sobre a Terra, sobre o Mar — Viagem e Viagens na Música (séculos XV-XXI)" propõe conhecer o Alentejo, de Vidigueira até Sines. Das igrejas que recebem os concertos às paisagens abertas sobre a planície, há ainda os saberes, os gestos e os sabores que fazem da cultura alentejana um lugar de pessoas. Nelas o festival centra a sua força agregadora e junta gente de dentro e de fora, com vontade de desfrutar da música e saber mais sobre o território.

Música

Na primeira paragem do extenso programa (26 de Janeiro a 7 de Julho), as vozes brilhantes que compõem The Spelman College Glee Club fazem sua a Igreja Matriz de São Cucufate em Vila de Frades para um momento de música no feminino, com um repertório que nos leva até ao país convidado do festival em 2019, os Estados Unidos da América. Vindo da Geórgia, este grupo de vozes é composto integralmente por jovens mulheres negras e a música que delas emana em forma de canção faz do concerto de abertura uma experiência mística, fruto também do espaço sagrado onde nos encontramos.

Terras Sem Sombra, Vidigueira
Terras Sem Sombra, Vidigueira

Património Cultural

Parte importante do espólio imaterial que caracteriza Vidigueira, para além do azeite e do vinho, é a sua produção artesanal de pão. Da cozinha alentejana fazem parte, aliás, inúmeras receitas que fazem do pão ingrediente estrela e meio de sustento das gentes. As conhecidas migas com carne de alguidar são um exemplo da transformação do pão em alimento de textura distinta e a sopa de cação tem nas fatias finas de pão da véspera acompanhamento essencial ao caldo aromatizado com alho e coentros.

Com o olhar sempre presente de Vasco da Gama, a nossa viagem pelo pão começa no Museu Municipal de Vidigueira e no seu núcleo etnográfico. Depois de acompanhar a história da moagem, dos cereais e do fabrico, seguimos para as padarias para pôr a mão na massa e ouvir de viva voz os padeiros e "Conhecer o ciclo do Pão: Teoria, Poesia e Prática".

Terras Sem Sombra, Vidigueira
Terras Sem Sombra, Vidigueira



Terras Sem Sombra, Vidigueira
Terras Sem Sombra, Vidigueira
Terras Sem Sombra, Vidigueira

Numa rua estreita de casas pequenas fica a padaria da Ti Joana que há mais de 40 anos faz pão artesanal e tem muito para dizer sobre o processo. A sua filha Gracinda vai explicando o processo de feitura do fermento a partir da massa-mãe e desvendando alguns segredos para a fermentação ser bem sucedida: uma batata ralada adiciona amido à mistura e torna mais eficiente a levedação ou como ao acrescentar laranja, a vitamina C faz tornava mais rápida. Depois, é a técnica de amassar que é explicada e cada um pode experimentar a sua maior ou menor apetência para o gesto. Quando a massa está levedada é preciso dividi-la e tendê-la. De novo, o que parece fácil em mãos treinadas fica complicado em quem nunca o fez. Com as histórias contadas e sem tempo para ver o produto do trabalho feito, seguimos para nova padaria. A proposta da actividade é conhecer diferentes lugares e perceber as diferenças.

Eis-nos chegados à padaria Peninsular. Aqui o pão é amassado em grandes amassadeiras e a escala de produção é muito maior. O cuidado e a atenção pelo pão é partilhado pela família de Gonçalo Rita que dá corpo e alma ao fabrico de pães, bolos e outras artes do forno. Com mestria, Gonçalo mostra-nos como se dá forma ao pão "de cabeça" tão próprio de Vidigueira, explicando a necessidade de manusear a massa sem lhe retirar o ar para garantir o pão leve e com "olhos". Após a segunda levedação o pão está pronto para ser cozido.

Terras Sem Sombra, Vidigueira
Terras Sem Sombra, Vidigueira

Biodiversidade

Conhecer o território é também tomar parte na paisagem, compreender a natureza e a relação estabelecida pelos seres humanos com a geografia. O rio Guadiana e os seus afluentes são mais dos que pontos no mapa, estabelecendo também o modo como as dinâmicas entre fauna e flora se vão desenvolvendo. "Quando os peixes tomam o elevador: Explorar a conectividade do rio Guadiana" é uma experiência de comunhão com a terra e o rio na barragem de Pedrogão.

Terras Sem Sombra, Vidigueira
Terras Sem Sombra, Vidigueira

É cedo que nos encontramos com os nossos guias junto ao paredão. O dia, frio, fervilha com o entusiasmo das dezenas de pessoas que o Terras Sem Sombra juntou. O caos organizado tem na directora executiva Sara Fonseca a sua âncora: é ela que mantém funcional a pequena multidão curiosa. No grupo fala-se português e castelhano, com o inevitável portuñol. Há uma curiosidade no ar e mil perguntas dirigidas aos nossos anfitriões da EDIA, responsável pela infraestrutura. Por eles ficamos a saber do elevador que permite às espécies de peixes que sobem o rio seguirem o seu caminho sem serem importunados pela barragem até ao rio Ardila, um afluente do Guadiana. Barbos, bogas e outros peixes de rio utilizam a caixa que sobe 43 metros e compõe o Dispositivo de Passagem de Peixes.

Terras Sem Sombra, Vidigueira
Terras Sem Sombra, Vidigueira
Terras Sem Sombra, Vidigueira

A actividade segue com a caminhada junto ao rio, por partes habitualmente interditas ao público e onde a vida do rio está gravada. As enchentes, a evolução do curso ou as plantas que habitam as margens são pretexto para a partilha entre os visitantes. Caminhando com Juan Ángel Vela del Campo, director artístico do festival, falamos de música e das escolhas ecléticas desta edição e de gastronomia, claro. É um sentido natural o da nossa conversa, um pouco como o espírito do festival que tem na partilha entre os povos a sua maior virtude. Ou como diz José António Falcão, director-geral, o Terras Sem Sombra quer tornar visível o Alentejo como experiência vivencial, a partir das suas raízes mas também do tempo actual e contemporâneo a que se chegou de uma forma equilibrada e sustentável. Razões mais que suficientes para pôr na agenda este festival e ir até ao Alentejo.

O programa completo está aqui e todas as actividades são gratuitas. Vão, vale muito a pena!

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